Indefinição mantém tensão em fazenda
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quinta-feira, 23 de janeiro de 1997
Paulo Pegoraro Sucursal de Cascavel 
Gustavo Couto Intranquilidade Sem-terra circulam na área onde ocorreram as duas mortes; delegado Sebastião Ramos mostra cartuchos de armas pesadas recolhidas no local do crime
RIO BONITO DO IGUAÇU - A indefinição do processo para que tenham posse efetiva sobre os 16,7 mil hectares que fazem parte do decreto de desapropriação pelo governo federal, e o clima de revolta pela morte de duas pessoas na semana passada, mantém a tensão entre os sem-terra da Fazenda Pinhal Ralo, em Rio Bonito do Iguaçu (125 quilômetros a leste de Cascavel). Antes que as mortes ocorressem, havia sido programada para hoje a transmissão de posse da área, com presença do ministro da Política Fundiária, Raul Jungmann.
O ato foi suspenso e sequer haverá missa de sétimo dia no acampamento. Segundo a superintendente do Incra no Paraná, Maria de Oliveira, a justificativa para a suspensão é que a transmissão de posse deveria ser um momento alegre. O processo de desapropriação está momentaneamente comprometido, o que espalha incertezas entre os sem-terra. Além disso, eles querem área maior - a fazenda tem 81 mil hectares - porque a repartição dos 16,7 mil hectares contemplará apenas cerca de 800 das 1,8 mil famílias.
Quando a fazenda foi invadida, em 17 de abril de 96, eram cerca de três mil famílias. Mas o número foi reduzido devido à demora na desapropriação e um selecionamento natural das que não perderam a disposição de esperar. A tensão só não é maior porque os sem-terra receberam garantias do secretário de Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, de que as investigações sobre os crimes são de interesse direto do governo estadual e do Ministério da Justiça.
O secretário esteve em Rio Bonito do Iguaçu anteontem para se inteirar sobre as investigações, comandadas pelo delegado de Laranjeiras do Sul, Sebastião Ramos, e com acompanhamento do promotor especial Diego Fernandes Dourado, designado pela Procuradora Geral da Justiça do Paraná. Concretamente, sabe-se que José Alves dos Santos, 36 anos, e Vanderlei das Neves, 16, foram assassinados com tiros de vários calibres à queima-roupa. Segundo sem-terra que os acompanhavam, os autores dos disparos foram seguranças da empresa proprietária da fazenda, a Giacomet-Marodin.
A direção da empresa tem negado a acusação e especula a possibilidade dos crimes terem sido cometidos por caçadores. Os assassinos tinham armas de grosso calibre, não usuais para caça na região, uma vez que são utilizadas geralmente contra animais de grande porte, segundo o delegado Sebastião Ramos. Cerca de 15 cápsulas de balas foram recolhidas na área, entre elas de calibre 12. Até agora, o delegado tomou o depoimento de duas pessoas.
Ramos disse que não pode dar detalhes dos depoimentos porque não interessa ao desdobramento das investigações. Segundo ele, um depoimento pode amarrar o seguinte a ser tomado. Por isso, seria importante manter seu caráter sigiloso.
A Folha, porém, obteve a informação de que o tenente reformado da PM Manoel de Jesus, chefe da segurança da Giacomet-Marodin, disse que não poderia assegurar que os assassinos não sejam seguranças, mas garantiu que a ação não foi planejada nem consentida pela empresa.
Outro depoimento, do sem-terra Darci Leoclides da Rocha Bittencourt, acrescenta detalhe importante ao caso. Ele disse que em 3 de dezembro foi atacado a tiros, supostamente por seguranças, na mesma área das duas mortes, nas proximidades da parte mecanizada da fazenda.


