A perspectiva de assentamento em troca de não invadir propriedades está atraindo, desde ontem, grande número de sem-terra da região de Lindoeste (50 quilômetros ao sul de Cascavel) para cadastramento feito por funcionários da superintendência estadual do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Trata-se do primeiro cadastro municipal para mapeamento do contingente de pessoas que reivindicam terra, e com possibilidade de assentamento no próprio município. Vários sem-terra disseram, porém, temer que o cadastro seja apenas uma forma de aliviar a pressão pelo assentamento, e que tenham que continuar ainda muito tempo sob barracos de lona preta.
O superintendente estadual do Incra José Carlos de Araújo Vieira era aguardado para o início do cadastramento (que deve prosseguir até amanhã), mas não compareceu, e os funcionários disseram não poder dar explicações sobre o processo. Em Cascavel, onde está a Unidade Avançada que faz a coordenação regional, agora nenhuma informação é prestada sobre ações do órgão. Tudo está ‘‘centralizado’’ em Curitiba, onde ontem estiveram reunidos os chefes de unidades existentes no interior. A Folha tentou contato com a superintendência para saber de prazos do assentamento, após o cadastro, mas, por causa da reunião, isso não foi possível.
Os sem-terra que chegavam ao local - o Viveiro Municipal - demonstravam não estarem inteirados do processo, nem dos critérios. Para se ‘‘habilitar’’ ao assentamento, eles devem ter idade entre 21 e 60 anos, podem ser empregados rurais, posseiros ou arrendatários, e até mesmo donos de menos de um módulo rural (na região equivale a 18 hectares), que seja insuficiente para o sustento familiar. Não estão aptos os que tiverem renda familiar acima de três salários mínimos obtida com atividade urbana; pessoas que já tenham sido assentadas pelo Incra e desistiram; e deficientes físicos e mentais incapazes para o trabalho.
Entre os que esperavam o cadastramento estava João Antonio da Silva, 21 anos, de Lindoeste, que diz ter participado no dia 20 de maio da invasão da Fazenda Refopas, em Cascavel, onde estão cerca de 1,2 mil famílias. ‘‘Lá não dá para trabalhar, porque está no risco do despejo’’, disse. A reintegração de posse já foi determinada pela Justiça. Ele afirmou também ter ouvido a informação de que o cadastramento em Lindoeste ‘‘vai dar terra meio logo’’. Ilca Teodoro, 50 anos, uma das muitas mulheres na fila, manifestava a esperança de que receberia pelo menos uns 10 alqueires para ela, o marido Sebastião, 50 anos, inválido, e quatro filhos (três moças).
Dona Ilca e a família plantam ‘‘de favor’’ em quatro hectares de um irmão dela, em Lindoeste. ‘‘Não dá para todos, e o feijão este ano minguou na safra’’, relatou. Circulando no local, o vereador Neuri Sperotto (PMDB), ex-sem-terra, proprietário de área na Fazenda Vitória (no município), ocupada por 160 famílias em 86 quando já havia decreto desapropriatório. Sperotto diz ser ‘‘contra invasão de terra’’, mas alerta que, ‘‘se o cadastramento for para enrolar as famílias’’ vai estimular. ‘‘Quero ser o primeiro a ajudar a ocupar prédio do Incra, em Cascavel ou Curitiba’’, disse.
Lindoeste, com 7 mil habitantes, segundo o último Censo, é exemplo dos municípios que enfrentam graves problemas fundiários. Além da Fazenda Vitória, há outros dois assentamentos, reunindo cerca de 40 famílias, porém existem mais 500 famílias em acampamentos. Dessas, 53 estão há duas semanas em uma área do Município para onde foram levadas depois de terem deixado duas fazendas que haviam ocupado. O grupo deixou as propriedades em acordo com o Incra, exatamente com a promessa de que seria iniciado o cadastramento e de que 20 dias depois seriam vistoriadas propriedades no próprio município, passíveis de desapropriação para o assentamento.

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