Inclusão nas escolas esbarra no despreparo de professores
Quando o Ministério da Educação e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançaram, em novembro de 2003, o programa ''Educação Inclusiva: Direito à Diversidade'', com a proposta de incluir crianças portadoras de deficiências nas escolas tradicionais, não previam a falta de preparo entre os professores da rede pública de ensino para receber a nova demanda. Essa é a avaliação do médico neuropediatra Vicente José Assencio Ferreira, especializado em educação inclusiva, que ministrou palestra anteontem, em Londrina, para cerca de 400 professores e profissionais da área de educação.
''O governo devia ter ouvido os professores antes de implementar o programa de inclusão, pois o que tenho ouvido são professores dizendo que estão despreparados, que são obrigados a lidar com uma situação difícil, tendo ainda de estudar sozinhos. Não há garantia de que o governo dê condições para essas pessoas se capacitarem e a sensação que fica é a de impotência'', afirma Ferreira.
Outro ponto levantado pelo neuropediatra trata da capacitação de professores, visando prepará-los para detectar crianças com dificuldades de aprendizado e distúrbios neurológicos ou comportamentais. ''É claro que é difícil diagnosticar esse tipo de problema, pois isso exige o trabalho de uma equipe multidisciplinar, com a atuação de psicólogos, pedagogos, terapeutas ocupacionais. Mas usar apenas o sexto sentido, como já ouvi de alguns professores, não pode ser critério'', conta o médico.
A professora da Escola Municipal de Cafeara (103 km ao norte de Londrina), Sílvia Bronze Hassin Turozi, vive essa situação de dificuldades todos os dias. Na turma que atende, dois alunos de 3 série, apresentam distúrbios de memória e déficit de atenção. ''É muito difícil trabalhar com alunos especiais, não recebi preparo para isso. Na escola, temos uma psicóloga que nos orienta, mas se não fosse ela eu não saberia lidar com esses alunos'', conta.
De acordo com a professora, na escola em que trabalha, praticamente todas as turmas têm inserido alunos portadores de deficiências e a dificuldade encontrada é comum entre os colegas. ''Na realidade, acredito que a inclusão já está feita, o que falta é capacitar os professores, ter um olhar diferenciado para este tipo de educação, pois o salário é o mesmo e tenho que buscar conhecimento por conta própria'', diz.
De acordo com reportagem veiculada no portal do Ministério da Educação, o censo escolar preliminar de 2005 aponta que, dos 639.259 alunos com necessidades educacionais especiais, matriculados na educação básica, seis em cada dez estão na rede pública e o restante, na particular. E a taxa de matrícula nas escolas públicas tem crescido: de 48,9% em 2001 para 57% em 2004 e 60% em 2005. (E.S.)





