'Incentivos foram fundamentais', afirma professor
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

Quando foi implantado, em 2004, o sistema de cotas da Universidade Estadual de Londrina (UEL) obedecia ao critério de proporcionalidade, no qual eram reservadas até 40% das vagas para estudantes oriundos da escola pública. O percentual da reserva era proporcional ao percentual de inscritos em cada curso. E metade das vagas para cotas eram destinadas a estudantes negros também egressos do ensino público.
Mas o critério da proporcionalidade foi considerado limitador e, na primeira avaliação, em 2011, o Conselho Universitário aboliu esse modelo. Desde então, a UEL separa 40% das vagas para estudantes de escolas públicas, sendo metade para negros.
O professor de Filosofia Alexsandro Eleutério Pereira de Souza ingressou no curso de Ciências Sociais da UEL em 2006 pelo sistema de cotas. Antes, ele havia tentado por duas vezes garantir uma vaga em direito pelo sistema universal, mas não passou no vestibular. Foi aprovado na Pontifícia Universidade Católica em Londrina, em 2005, onde iniciou a faculdade de Direito, que cursou durante um ano. "Descobri que eu podia tentar uma vaga na UEL pelas cotas e como as disciplinas de que eu mais gostava no curso de Direito eram ciências sociais e política social, resolvi tentar o vestibular para Ciências Sociais e passei. Deixei a PUC para entrar na UEL."
Em 2010, Alexsandro concluiu a graduação, partiu para o mestrado e hoje faz doutorado em serviço social e política social, que deve concluir em 2018. A possibilidade de participar de projetos de pesquisa e extensão e conseguir uma bolsa desde o primeiro ano da faculdade foi fundamental para garantir sua permanência até o fim na graduação. "As cotas foram uma motivação para eu passar no vestibular, mas os incentivos foram fundamentais. Hoje tem poucos negros na UEL, mas quando eu comecei tinha menos ainda. O Neab (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros) foi para mim um espaço de sociabilidade e troca de experiências", contou Alexsandro.
Em mais de uma década como aluno da UEL, a questão racial sempre esteve no foco de seus estudos e pesquisas. No Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), ele discutiu território e racismo. No mestrado, a sociabilidade e o racismo foram o tema de sua tese e agora, no doutorado, ele segue discutindo a questão. "A universidade foi feita para atender a população branca, as elites. As cotas estão mudando o perfil da UEL. Antes, os negros tinham que se adequar ao ambiente social, mudando as roupas e alisando os cabelos. Hoje tem black power, rastafári e chinelo. Os negros estão trazendo um pouco da sua cultura."
Ele destaca a criação de dois coletivos, nos cursos de Medicina e Psicologia que atuam para combater o preconceito racial dentro da UEL. "Entrevistei os alunos dos coletivos e todos relatam a apreensão de como vai ser o primeiro dia na universidade. Grande parte deles é o primeiro membro da família a ingressar no ensino superior público. Eu fui o primeiro da minha família a concluir o ensino médio", revela. "As ações afirmativas mostram que a universidade é um ambiente receptivo aos negros."


