Incêndio quase engole barracão que abrigava os meninos de rua
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de janeiro de 1997
Carina Paccola 
Warren NabucoChamada noturnaSob a lua, soldados do Corpo de Bombeiros procuram vestígios de fogo no barracão da rua Duque de Caxias
Já passava das cinco da manhã de sábado quando dois carros do Corpo de Bombeiros de Londrina pararam em frente ao barracão que serviu de moradia para meninos de rua, na avenida Duque de Caxias (área central). Para o céu, subia uma fumaça escura. Era um princípio de incêndio que logo foi controlado. No local, trabalhavam seis bombeiros. Do alto da escada, com lanternas, dois espiavam pelos buracos do telhado se não restava nenhuma faísca de fogo. Só tem entulho, madeira e restos de roupas, disse um deles.
Como começou o fogo? Difícil saber. É provável que alguém tenha provocado. Afinal, na tentativa de impedir a entrada dos menores ao barracão, o local foi vedado. O acesso só é possível pelo telhado.
Os bombeiros foram chamados por uma insone moradora da vizinhança e por um guarda-noturno. Se não fosse visto a tempo, o incêndio poderia ter causado grandes estragos. O prédio, vazio, ocupa metade do quarteirão e não tem qualquer utilidade para o comércio. Mas a vizinhança acompanha de perto qualquer movimentação que ocorre no barracão.
Por muito tempo, ele foi refúgio para meninos e meninas que resistiam em ir para casa ou para instituições de menores da Cidade. Eram os meninos do barracão, que os abrigava da noite e da chuva. Anestesiados com o uso de cola de sapateiro e alheios aos horários do cidadão comum, os meninos do barracão faziam muita algazarra e barulho durante as madrugadas. Em noites mais agitadas, chegaram a apedrejar um dos prédios que fazem fundos para o barracão.
Depois de muita intervenção da Secretaria de Ação Social e da polícia, os meninos saíram de lá. De vez em quando, uns transpõem as barreiras de concreto e por uns dias matam as saudades da velha casa.
Ali, durante a noite, também já houve perseguição de ladrões por policiais, que corriam pelos telhados atrás dos marginais, que conseguiram escapar. Das janelas dos prédios e das casas vizinhas, os moradores observam tudo. Eles já viram muitas vezes os meninos fazerem fogueira dentro do barracão para aquecer as noites de inverno. E já previam: Qualquer dia pega fogo em tudo. Além de videntes, os vizinhos são também vigilantes. Os bombeiros chegaram a tempo.
Foi o último atendimento do plantão que havia começado na sexta-feira de manhã. Às 8 horas, os bombeiros entregariam o serviço para a próxima equipe. O dia havia sido cansativo. Era a terceira ocorrência. O sargento Joab desabafou: Eu não ligo de trabalhar, não. Posso trabalhar a noite toda. Mas é duro vir aqui num barracão que não serve pra nada. Vou ligar para o proprietário (que mora em São Paulo) e propor a ele transformar isso aqui numa igreja. Duvido que ele concorde.


