Impunidade marca dois anos de chacina
Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
Um delegado e oito investigadores que há exatamente dois anos participaram de uma operação policial que resultou na morte de quatro jovens (três menores) moradores da Favela Monsenhor Guilherme, em Foz do Iguaçu, continuam trabalhando normalmente em três delegacias do Oeste e Extremo-Oeste do Estado.
Sete deles permanecem na 6ª Subdivisão Policial, em Foz do Iguaçu, e um trabalha na Delegacia de Santa Terezinha de Itaipu. O chefe da operação, o delegado Antonio Donizete Botelho, 43 anos, chefia hoje a Delegacia da Criança, em Cascavel.
Morreram na operação, ocorrida na madrugada de 10 de outubro de 1997, Eli de Oliveira, de 19 anos, e os menores Adenilson Dias Matos, 17 anos, Arnaldo Oziel Mongelos, 16 anos, e Giovani Medina, de 15 anos.
A única punição sofrida pelos policiais até agora foi determinada pelo Conselho da Polícia Civil. Depois de investigações feitas pela Corregedoria, os investigadores Celso Geraldo Carneiro, 41 anos (hoje lotado em Santa Terezinha de Itaipu), Fioravante Perruchon dos Santos, 27, Francisco Carlos Cogrossi, 37, Hugo Vidal Ferreira Júnior, 42, Luis Carlos dos Santos, 37, Luis Carlos Durieux, 42, Paulo Roberto Saucedo, 34, e Pedro Isac Nemecek, 42, foram suspensos por dois meses, acusados apenas de terem removido os corpos antes da chegada da perícia. As penas foram cumpridas em junho e julho do ano passado e depois disso o grupo voltou a trabalhar.
O juiz Eduardo Casagrande Sarrão já ouviu os nove policiais e já apreciou o processo que possui quase 1,8 mil páginas divididos em nove volumes. A partir do dia 26 de novembro, o magistrado passará a ouvir as 14 testemunhas de acusação. A 3ª Vara Criminal, onde será feito o julgamento, é uma das mais sobrecarregadas do Fórum de Foz. A cada ano são acrescidos em seu arquivo 400 processos. Mas sabemos priorizar casos de grande apelo popular como este, afirma o magistrado. A previsão é que o veredito só saia no final do ano que vem.
Caso Sarrão considere que as provas indicam que houve abuso na operação, a matéria deve ir a júri popular. Isto não significa garantia de condenação. Tudo dependerá das impressões que a opinião pública tiver do episódio, lembra Renan Gabardo Fava, um dos 10 promotores que assinaram a denúncia contra os policiais.
Em decisão quase unânime apenas o promotor Cândido Furtado Maia Neto não assinou a denúncia os promotores sustentaram no documento que os policiais executaram sumariamente as vítimas e pedem a condenação por homicídio qualificado, que prevê pena de até 30 anos de detenção em regime fechado. As provas são suficientes para incriminá-los, assegura Fava. A mais forte delas seria a grande quantidade de perfurações à bala na cabeça das vítimas.
Os policiais, apoiados pela contratação de um respeitado grupo de advogados, sustentam a tese do confronto. Na versão deles, os quatro rapazes faziam parte de uma quadrilha de tráfico de drogas baseada na favela, que fica na área central da cidade, à margem do Rio Paraná. O grupo afirma ainda que os jovens estariam armados e portariam drogas quando foram flagrados pela operação, reagindo com tiros. Nenhum policial saiu ferido na ação.Policiais envolvidos na morte de quatro jovens em uma favela cumpriram até agora apenas dois meses de suspensão
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