IML completa 11 meses de intervenção
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Diego Ribeiro<br> Equipe da Folha 
Uma instituição vista com desconfiança pela população, carente de investimentos e que caía no esquecimento do governo do Paraná. Por outro lado, marcada na lembrança das pessoas que dependem do serviço, em razão da demora e do péssimo atendimento prestado. Esse era o retrato recente do Instituto Médico Legal (IML) do Paraná. No último dia 22, o IML completou onze meses sob intervenção.
Nesse período, o IML esteve sob a responsabilidade do interventor Almir Porcides Junior, coronel formado pelo Corpo de Bombeiros e há mais de 20 anos no serviço público. Ele foi nomeado pelo secretário da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, com a missão de melhorar toda estrutura do Instituto, inclusive o tratamento às pessoas que precisam dos trabalhos do IML.
De lá para cá, muitas mudanças foram necessárias. O coronel começou pela prisão de dois motoristas que tentavam extorquir dinheiro de uma família para que encaminhassem o corpo de um parente direto para uma determinada funerária da Capital. Infelizmente -nas palavras do próprio coronel-, os dois voltaram a trabalhar no próprio IML, por força de uma liminar concedida pela Justiça.
Quatro meses depois, o Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce) investigou e descobriu no IML um esquema montado por três pessoas, entre eles um ex-funcionário do Instituto, para receber ilegalmente o dinheiro do Seguro Obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (Dpvat).
Não bastasse esse caso, os policiais ainda teriam descoberto uma médica-legista que retiraria órgãos ilegalmente do Instituto.
Estas descobertas fizeram parte do início das mudanças e começaram com a retirada de funcionários de funerárias do pátio do Instituto, que abordavam pessoas para indicar empresas e tentar lucrar, aproveitando o nervosismo e a tristeza de quem precisa enterrar um parente.
Mais do que apenas prender funcionários corruptos, Porcides diz pretender "humanizar", até o final de 2010, o atendimento e suprir todas as necessidades sempre criticadas do IML.
Leia a seguir trechos da entrevista concedida por Porcides à FOLHA em janeiro.
FOLHA - Como era o IML e o que mudou?
Porcides - Ao assumirmos a intervenção no Instituto Médico Legal (IML), nos deparamos com muitos problemas. Senti que era uma instituição que estava em decadência e que estava, vamos dizer assim, na UTI. Vimos os problemas e, desde então, estamos tentando aparar essas arestas. Acho que já teve uma evolução substancial porque não é apenas o IML de Curitiba, mas sim todo IML do Paraná. E todos com problemas. No final do ano passado chegaram seis novos rabecões. Para este ano, já estamos em processo de licitação, dando início à compra de mais oito rabecões.
O IML é uma instituição cheia de problemas. E um deles está no atendimento à população. Como era o atendimento e o que melhorou?
Acho que melhorou sensivelmente, tendo em vista que colocamos parte da equipe como chefe nos plantões. Queremos a parte da humanização, do trato com essas pessoas que vêm ao IML, já de luto, e que, antigamente, eram maltratadas. Não era de acordo com aquilo que um servidor público deveria fazer com essas pessoas. Hoje mudou. Temos problemas? Ainda temos, mas está mudando.
Outro problema era o número de funcionários. Quantos são os funcionários do IML hoje no Paraná?
Por volta de 400 funcionários.
Aumentou em relação ao que era antes?
Está no mesmo patamar. Diminuiu um pouco em virtude de aposentadorias. Depois de nossa chegada aqui, muitas pessoas pediram aposentadoria. Mas vão chegar por concurso mais médicos, auxiliares de necrópsia.
O senhor acredita que a falta de funcionários ainda seja um problema?
Sim, de pessoal. Tem cidades do interior onde há pouquíssimo pessoal. Então, a gente vai fazer um estudo de viabilização de um novo concurso para preencher essa falta.
Este ano?
Neste ano.
Para falar especificamente de duas cidades: Londrina e Curitiba, como estão?
Londrina é um pólo em franco desenvolvimento, que não tem tantos problemas como Curitiba. O administrador é uma pessoa competente, organizada. Estivemos lá, no decorrer do ano passado, visitando, e constantemente vamos para Londrina.
No ano passado, vimos uma série de casos envolvendo funcionários do IML, como a fraude do seguro Dpvat, casos envolvendo motoristas que extorquiriam famílias. Isso era um problema que já vinha ocorrendo? E como vocês trabalharam para descobrir isso?
Não posso afirmar, categoricamente, que isso acontecia. A gente supõe. Com a nossa chegada aqui, as coisas foram aparecendo e tomamos as providências cabíveis que resultaram em prisões.
Mas quando o senhor chegou no IML percebeu que havia funcionários corruptos, que acabavam utizando o serviço público para tirar vantagens de outras pessoas?
Tanto é que foram presos dois motoristas e hoje eles já estão aqui de novo, por força de uma liminar. Mas naquela ocasião foi verificado por nós, mas que na Justiça ainda está em trâmite.
Daqui para frente, quais são os principais problemas que deverão ser solucionados nos IMLs do Paraná?
Dotar todos os IMLs de estrutura. Faltam equipamentos, geladeiras, rabecões.
Nestes onze meses, o senhor fez avaliações, estudos sobre os IMLs no Paraná. Em quais cidades há mais problemas e quais precisam de uma atenção maior do governo? E quais municípios já tem IMLs com melhor nível?
Estão em fase de licitação alguns novos IMLs. Vamos começar por Curitiba. Então, o planejamento está em andamento, na parte de projeto. Outras sedes que serão novas são Londrina, Maringá, Paranavaí, quase em fase de licitação da obra, Toledo, e União da Vitória. Os demais são estruturas que estão caminhando e suportando.
E qual a previsão para a conclusão dessas novas construções?
Até 2010. Provavelmente, até o final do ano (2009), já tenhamos inaugurado Paranavaí, Toledo e União da Vitória. Esses de maior porte, Curitiba, Londrina e Maringá, na sequência.
Sobre os gastos do IML. Quando o senhor chegou aqui encontrou gastos além da conta, exagerados?
Não. Não teve coisa assim. Era tudo dentro da normalidade.
E essa demora na conclusão dos exames feitos pelo IML? É por falta de estrutura?
Não. Não é por falta de estrutura. É um prazo legal. Veja bem, conforme é feito a necrópsia nas pessoas, tem que ser feito ainda a anatomia patológica, outros exames que requerem uma maior acuidade, exames toxicológicos, que também demoram. Fosse só a necrópsia em si, era na hora. O médico chega, faz e já libera. Mas como há casos que envolvem crimes e que no corpo da pessoa pode ter algum outro resíduo, vai para a química legal e para a toxicologia, para não dar problema investigatório, em que o médico venha a responder lá na frente. Por isso, demora.
E o atendimento de final de semana, quando aumenta o número de homicídios? O rabecão acaba demorando para chegar no local? Isso vai melhorar?
Está melhorando. Nos finais de semana, a demanda é muito grande. Tivemos finais de semana com 50 corpos aqui (no IML). Então, é muito complicado. E isso a população não entende. Até chegar no local, até voltar. Tem que ser rápido? Tem que ser. É isso que eu quero. Quero uma qualidade efetiva. Estamos nos encaminhando para isso. Mas dentro da normalidade do serviço do médico é assim. É demorado mesmo.
Em média, quanto demora uma necrópsia?
Demanda duas horas. Conforme o caso, três horas. Tem outras rápidas, que em 45 minutos o médico faz.
Antigamente, os médicos iam para casa à noite e demoravam para ir até o IML fazer o atendimento. E agora?
Ainda continua assim. Por quê? Porque aqui no IML é um local insalubre. Eu pensei logo no começo em colocá-los em um alojamento aqui. Inclusive, aqui nesta sala é um local insalubre. Volta e meia, a gente sente o cheiro pútrido, quando algum corpo chega. Então, é um local totalmente insalubre e a gente não quer arriscar a vida das pessoas. Além do serviço ser insalubre, ele (o médico) está respirando 24 horas no lugar...
Na próxima sede, há previsão de um local adequado para os médicos?
A próxima sede foi muito bem elaborada. A gente reuniu todos os médicos, pessoas de cada setor do IML para darem todas as características da sala deles, do laboratório, da sala de necrópsia, tanto é que o necrotério será separado. Vai ser uma coisa bem feita, pensando nesta situação, de ter um alaojamento digno para que pernoitem no plantão. A tendência é chegarmos ao final do governo bem estruturados.
Quanto foi investido no IML, desde que o senhor assumiu, e como será o investimento daqui para frente?
Só em construções serão investidos em torno de R$ 5 milhões. E o que foi investido do ano passado para cá, apenas de material, mais de R$ 300 mil. Foram equipamentos de necrópsia, de laboratório, todos os materiais pertinentes, a química legal, toxicologia, a medicina legal e a anatomopatologia. E os rabecões. Eram dois e agora são seis.
E em relação à população, o que precisa ter no IML para um atendimento ideal?
Colocamos dois estagiários de assistência social. Antigamente, os plantões tratavam muito mal as pessoas. E isso nunca aceitei. Daqui a pouco é a minha família, a sua, a família de outras pessoas. E geralmente são pessoas de baixo poder aquisitivo, analfabetos, que precisam de uma orientação, e isso a gente quer aqui.


