Até bem pouco tempo, um descampado que ninguém ousava atravessar salvo os adolescentes que ali dormiam e se drogavam. Ontem, um lugar monumental repleto de gente e diferenças que dificilmente se veria lado a lado em outra ocasião. Mais do que uma homenagem ao povo nipônico, a cerimônia de inauguração da Praça do Centenário da Imigração Japonesa Tomi Nakagawa, no Centro de Londrina, foi uma breve materialização de um sonho: a aproximação de milhares de pessoas de várias raças, crenças, idades e classes sociais.
Pessoas que se misturaram dentro e fora da praça, na calçada da Rua Benjamin Constant, nos gramados que descem até a Avenida Leste-Oeste, nas escadarias do Pronto-Atendimento Infantil (PAI), sobre a velha Maria-Fumaça estacionada no pátio da unidade de saúde e em qualquer outro canto de onde se pudesse ver melhor o desfile de autoridades. ''Deus nos beneficiou com um céu azul neste dia tão especial'', celebrou o maratonista Jurandir Pereira do Carmo, 53 anos.
''Viemos ver o príncipe'', respondeu sem hesitar a família Egashira, quando indagada sobre o que a fez vir de Santa Cruz do Rio Pardo (SP) para Londrina. Por uma razão ou por outra, foi a visita de Naruhito, príncipe-herdeiro do trono japonês, que levou à praça grande parte das cerca de 5 mil pessoas contabilizadas pela organização do evento.
''Não viemos com a esperança de ver o príncipe'', disse a dona-de-casa Akemi Miyagusuko, 54 anos, para logo depois traduzir declaração contrária nas palavras da sogra, Mitsu, 82 anos: ''Ela diz que vai tentar...'' As duas procuravam uma cadeira para o aposentado Kiyomatsu Miyagusuko, 90 anos, morador de Pirapozinho (SP) que fez questão de ir à praça com sua inseparável muleta. ''Para os japoneses'', comentou Akemi, ''Naruhito é um escolhido, alguém que nasceu dotado de sabedoria para ocupar o trono''.
Figura emblemática da integração entre as raças, Antônio dos Anjos, 51 anos, brasileiro negro que vive há 13 anos no Japão, foi à praça para tentar assistir à passagem do príncipe que nunca pôde ver do outro lado do mundo. ''Estou aqui desde dezembro, mas volto mês que vem. Adoro o povo japonês, acho que eles merecem até mais do que essas homenagens'', atestou.
Para muitos dos não-descendentes, a expectativa parecia mais motivada pelo glamour que envolve a realeza. ''Imagino ele com roupa de príncipe'', confidenciou a manicure Olinda Constância, 53 anos, que veio da Zona Norte de Londrina e subiu em um caminhão da prefeitura para tentar ver melhor a solenidade. ''Queria que ele viesse vestido como um príncipe, com aquelas vestes bonitas. De terno não tem graça'', sentenciou a vendedora Rosi Bernardo, 61 anos.
Mas foi de terno mesmo, com elegância e simplicidade, que Naruhito surgiu diante dos plebeus. A passagem-relâmpago frustrou alguns. ''Pensei que ele ia falar alguma coisa. Mas achei ele simpático e bonito'', resumiu a estudante Neuseli Alves de Oliveira, 16 anos. Para outros, contudo, foram instantes inesquecíveis. Dona Massae Uemura, 94 anos - uma das pioneiras que ganharam o privilégio de assistir à cerimônia em uma ala reservada e acessível ao príncipe - descreveu, com a ajuda de uma intérprete, a sensação de ser cumprimentada pela alteza: ''Nunca pensei que fosse receber os cumprimentos dele um dia. Estou realmente emocionada''.
Emoção que veio misturada com surpresa e espanto para Haruo Taketomi, 89 anos, que estava sentado em uma área onde não era prevista a passagem do príncipe. Quebrando o protocolo, Naruhito não só passou pelo local, como resolveu apertar uma das várias mãos estendidas em sua direção - justamente a de seo Haruo. ''Ele apertou minha mão e falou 'saúde'. Não respondi nada, a voz não saiu. Até agora não tenho palavras para descrever a emoção'',
declarou o imigrante, que mudou-se para o Brasil com cinco anos. ''É um dia para ficar na memória. Para contar aos netos e bisnetos.''

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