Acampamento Ilha Grande. Porto Figueira. Município de Alto Paraíso (74 km a noroeste de Umuarama), antiga Vila Alta. As barracas de lona abrigam dezenas de famílias. Em meio aos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, alguns moradores têm objetivo um pouco diferente, apesar de também estarem na luta por um pedaço de chão para produzir. São os ex-ilhéus de Ilha Grande, que perderam suas propriedades quando foi baixado o decreto que criou o Parque Nacional, em 1997, e que até hoje aguardam a prometida indenização.
Entre essas pessoas está Jonas Moreira da Silva, 67 anos. Mineiro de Mantena, ele veio recentemente para o continente, depois de uma enchente que inundou uma grande área na Ilha Jacaré.
Impedido de retornar pela fiscalização, Jonas Silva não teve alternativa e instalou-se no acampamento que hoje abriga 80 famílias. Os três alqueires de terra deixados para trás ainda produzem arroz, feijão e banana. A esperança do agricultor é receber a indenização para voltar a trabalhar no roça, mesmo com a idade avançada. ''Já não quero voltar para a ilha. Só quero o dinheiro da indenização para poder trabalhar'', salienta.
O drama de Jonas Silva é vivido também por outros ex-ilhéus, espalhados por bairros pobres e Zona Rural de cidades paranaenses e do Mato Grosso do Sul. A pobreza e o direito ao dinheiro formam um cenário de revolta e sensação de impotência. Mesmo com um pequeno pedaço de terra no acampamento Água da Prata, na Zona Rural de Querência do Norte, Joaquim Medina de Souza, 67, tem saudade dos 31 anos em que morou na Ilha Barbado. Pescador profissional aposentado, ele tinha criações e lavoura. Seis dos sete filhos nasceram área, parte recebida de presente de uma capitão da Marinha e outra comprada com escritura registrada em cartório.
Três deles ainda permanecem na ilha. Os que vieram para a cidade trabalham, quando conseguem uma colocação, como bóias-frias. Desanimado, Souza diz que perdeu a terra e está até perdendo a coragem de trabalhar. ''Cidade não é lugar de nós que somos pobres. Não tem emprego para todo mundo. Cidade é lugar de quem tem dinheiro. Lugar de pobre é na ilha'', avalia. Ele também cobra uma posição definitiva das autoridades. ''O povo respeita a lei. Eles mandaram sair, nós saímos. Agora temos que fazer como os sem-terra e enfrentar essa gente. Eles não querem que a gente volte e não querem pagar'', cobra.
E voltar também é o sonho de Carlos Vitorino da Silva, 58. Ele questiona, principalmente, o valor da indenização a ser paga. Depois de morar quatro anos nas ilhas Grande e Pavão, o agricultor salienta que enfrentou muitas dificuldades para não receber nada em troca das terras. ''As enchentes normais eram tranquilas. O problema foi uma enchente maior, quando a água chegou a 2,80 metros pra cima do chão'', relata. Agora, ele cobra maior valorização do sofrido trabalho. ''Tem que indenizar com o valor da terra, os juros, o lucro cessante e ainda pagar as benfeitorias'', reivindica. (F.R.F.)

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