Ilha ainda garante sustento de famílias
Atualmente, centenas de ex-ilhéus sofrem os efeitos da expulsão das ilhas do atual Parque Nacional de Ilha Grande. A Folha mostrou, nessa série de reportagens, que os desalojados estão espalhados em diversas cidades da região Noroeste do Paraná e em outros estados como Mato Grosso do Sul. A briga pelas indenizações alia pessoas em diversas situações econômicas e vários municípios paranaenses.
Alguns conseguiram superar as perdas econômicas provocadas pela desocupação das terras, pelo não-aproveitamento das criações e pela falta de pagamento das indenizações. Outros sofrem em acampamentos de sem-terra, com problemas de saúde e a destruição de um investimento de toda uma vida.
Há quem ainda viva das possibilidades de exploração econômica que as ilhas oferecem. Um exemplo é o pescador aposentado Artur Schmitz, 67 anos. Morador da Ilha Grande por seis anos, ele hoje vive na Zona Rural de Guaíra. A pequena casa é lar dele e dos seis filhos, com idades entre 5 e 16 anos. O sustento da família é garantido por pequenas lavouras e criações no continente, e também pelas as abelhas que ele cria na ilha. A venda do mel orgânico é a principal fonte de renda.
Como pelo menos 20 ex-ilhéus, Schmitz dedica os fins de semana ao trabalho na ilha. Ele explica que somente não mora lá, apesar da proibição, por causa do estudo dos filhos. Eles acompanham o pai na viagem. ''Têm de aprender a trabalhar desde cedo'', salienta. A dura vida do campo não é a única lição aprendida pelas crianças. Nas noites na Ilha Grande, o risco inclui as visitas constantes de onças pardas e pintadas. ''Dá pra escutar elas arranhando pés de eucalipto perto de casa'', conta ele.
Para o aposentado, a retirada dos moradores não seria necessária para garantir a preservação ambiental. Schmitz revela que inclusive uma proposta foi feita ao Ibama: os ilhéus poderiam atuar como uma espécie de guarda florestal. ''Nunca recebemos resposta'', salienta. Segundo ele, ninguém melhor dos que os próprios moradores para zelar pelas riquezas naturais locais. ''Claro que a gente ia cuidar do que é da gente. Só que do jeito que está, daqui a pouco vão comprar Guaíra e mandar todo o povo embora'', exagera.(F.R.F.)





