Rosalina Lopes Franciscão, 94, é a fundadora do Iles: dedicação, persistência e sensibilidade
Rosalina Lopes Franciscão, 94, é a fundadora do Iles: dedicação, persistência e sensibilidade | Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha

Uma imagem que não sai da memória de Rosalina Lopes Franciscão, hoje com 94 anos: um menino parado na porta de sala de aula, no antigo grupo escolar Benjamin Constant, em Londrina. Na época, ela era professora e ficava curiosa com a atitude do garoto, que a observava dando aulas. Ao descobrir a identidade de Luis Carlos, descobriu também que ele era surdo e há três anos estava na 1ª série porque era reprovado nas provas de leitura. Nessa época, precisamente em 1958, foi nomeada diretora e tinha planos para esse aluno em especial. Ela o mudou de sala e passou a fazer as provas de leitura com ele. “Ele me abriu os olhos. Ao ler o livro, ele fez um gesto de barriga de grávida seguido de um ninar de bebê. Ele estava me dizendo, através de gestos, o que estava escrito, ou seja, a barriga do bebê”, recorda.

Essa lembrança traz um brilho especial no olhar da professora, que no ano seguinte fundou o Iles (Instituto Londrinense de Educação de Surdos) com a ajuda de muitas pessoas, especialmente do marido, o também professor Odésio Franciscon.

No dia 15 de agosto, a entidade completa 60 anos mantendo a referência em educação para surdos, por meio do Colégio Estadual do Iles, e em serviços de saúde, por meio do Centro Audiológico. Ambas estruturas ficam na zona leste de Londrina.

E toda essa história começou com o garoto Luis Carlos, hoje já falecido, tido por Fransciscão como “um chamado de Deus. Eu não procurei nada. Foi tudo acontecendo casualmente”, diz. Na tentativa de ajudá-lo, ela foi até Curitiba falar com o professor Benedito Cordeiro, que na época era chefe do ensino no Estado. “A gente já se conhecia e, por sorte, naquele dia um grupo de surdos estava na sala convidando-o para um campeonato. Eu disse: também estou aqui por causa de um surdo. Ele me colocou em contato com a Irmã Nídia, que também estava engajada na causa e era surda."

A comunicação acontecia via leitura labial, pois a Libras ainda não era disseminada e nem reconhecida no Brasil. “Ela não me entusiasmou muito. Disse que ninguém ajudava, mas me deu um livro”, conta. Dias depois, a professora tomou um ônibus para São Paulo para visitar a mãe no interior, mas acabou na porta do professor Jorge Gadig, que era superintendente do ensino especial naquele Estado. “Ele propôs, em troca de passagens, vir duas vezes por semana para Londrina para instruir nossas professoras através do método de leitura labial”, comenta Franciscão, que a partir daí, viu o Iles ganhar corpo.

Semanas depois, ela escreveu o artigo “Os mudos também falam”, publicado na Folha de Londrina e viu sua ideia ganhar o País. “O jornal foi um mensageiro porque as famílias foram surgindo através dele. Vinha gente de Mato Grosso, São Paulo, entre outros”, afirma.

As aulas aconteciam na sala da direção do antigo grupo escolar Benjamin Constant, mas uma década depois a Instituição mudou-se para as instalações atuais, com a doação do terreno pelo empresário José Garcia Molina. Além do Iles, na década de 1960 existia apenas uma escola direcionada para surdos em SP e outra em Curitiba.

PEQUENAS MISSÕES

Como Franciscão acredita que pessoas especiais surgiram em seu caminho por vontade de Deus, a vinda das irmãs das Pequenas Missões para Surdos, da Itália para Londrina é outro exemplo citado por ela. “De todas as escolas da época, elas escolheram a nossa”, conta.

Era 1973 quando as irmãs chegaram ao Iles para prestar assistência técnica e religiosa para as turmas de Educação Infantil e de 1ª a 4ª série. A ponte entre a instituição e a Pequenas Missões foi um padre conhecido de Franciscão, que durante uma viagem para a Itália contou o cenário que estava se formando em Londrina.


No dia 19 de agosto será promovido um jantar por adesão em comemoração aos 60 anos do Iles.

PIONEIRISMO EM SAÚDE

Com o trabalho de educação bem estruturado, o Iles implantou em 2001 o Centro Audiológico “Profª Rosalina Lopes Franciscão”, com foco em atendimentos e serviços de saúde para pacientes de Londrina e de mais 21 municípios que integram a 17ª Regional de Saúde.

O espaço conta com fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, além de otorrinolaringologistas e neuropediatras. Por dia, são realizados em média 50 atendimentos e aproximadamente 20 testes da orelhinha. Aliás, a obrigatoriedade desse exame em recém-nascidos em Londrina, foi uma iniciativa do Iles.

“As crianças chegavam aqui com uma certa idade e precisavam fazer exercícios respiratórios para aprender a falar e isso precisava mudar. Descobri que havia o teste da orelhinha no Rio de Janeiro e busquei ajuda de uma ex-aluna que era vereadora na época, para ir atrás disso. O projeto virou lei aqui na cidade e depois avançou para Curitiba e Brasília. Fomos pioneiros”, comemora Rosalina Franciscão. Ela destaca que antigamente havia muito mais surdos devido aos casamentos consanguíneos e a presença da rubéola, doença infecciosa que causa surdez congênita.

LIBRAS

Foi somente em 2002 que a Libras (Língua Brasileira de Sinais) foi aceita como forma de comunicação e expressão no Brasil. O reconhecimento aconteceu mais de quatro décadas após a fundação de Iles. “Hoje, temos lei de incentivo a trabalho com surdos, apoio à linguagem. Temos surdos formados em doutorado, no mestrado, temos uma equipe no MEC, na Secretaria de Educação. Eles não têm limites para se desenvolver”, comenta a diretora do Colégio Estadual do Iles, Doralice Dias da Silva.

ESPAÇOS NA SOCIEDADE

A lucidez e disposição de Rosalina Lopes Franciscão são impressionantes. Aos 94 anos, ela ocupa os espaços do Iles como sua segunda casa e ainda se atualiza com os assuntos mais importantes a serem resolvidos, já que continua ocupando a presidência. Questionada sobre a maior conquista do Iles, não pensa duas vezes antes de destacar os profissionais que chegaram lá ainda bebês. “Eles cresceram aqui, estudaram e hoje são professores na escola ou estão ocupando outros espaços na sociedade”, diz orgulhosa, apontando para Cleusa de Oliveira.

A história de Oliveira com o Iles envolve pouco mais de 22 anos. Ela começou a frequentar a escola com 12 anos. Se formou em pedagogia na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e hoje é coordenadora no Iles e docente na disciplina de Libras em todos os cursos de licenciatura da universidade.

“Morávamos em Carlópolis (Norte Pioneiro) e minha família ficou sabendo sobre o Iles. Mudamos todos para cá e desde então minha vida mudou. Lembro do primeiro dia aqui. Estranhei muito ao ver as pessoas fazendo gestos, mas eu queria falar, me comunicar e então comecei a aprender e a gostar. Em 1996, o mundo começou a aceitar a língua dos sinais e passei a trabalhar no Instituto como instrutora. Se não fosse esse lugar, onde os surdos estariam?”, indaga.

Atualmente, a escola do Iles possui 62 alunos a partir dos seis meses de vida. Eles aprendem Libras (língua brasileira de sinais) como sua língua materna e assim, ficam aptos a adquirir outros conhecimentos e entrar em um ritmo de estimulação regular.

“Em uma criança surda, a estimulação tem que ser precoce porque ela vai conhecer a própria identidade. Na maioria das vezes, os pais dessas crianças são ouvintes e a escola tem o papel de ensinar a língua materna da criança. Ela só terá condições de aprender os conteúdos e disciplinas a partir do momento que ela tem conhecimento em Libras”, explica a diretora Doralice Dias da Silva.

 “Eu pertenço a essa escola e guardo muito amor por tudo e todos, pois foi aqui que aprendi a me desenvolver”, afirma João Vitor Gutuzzo, com a mãe Adriana
“Eu pertenço a essa escola e guardo muito amor por tudo e todos, pois foi aqui que aprendi a me desenvolver”, afirma João Vitor Gutuzzo, com a mãe Adriana | Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha

A escola é mantida pelo governo estadual e segue um currículo comum até o ensino médio. Este ano é o último do João Vitor Gutuzzo, 17, no Iles. Em 2020, ele fará vestibular para o curso de letras/libras ou fisioterapia. “Eu pertenço a essa escola e guardo muito amor por tudo e todos, pois foi aqui que aprendi a me desenvolver”, comenta o estudante, que entrou no Instituto antes de completar dois anos de vida.

A professora dele Jane Bastos Alves, conta que a educação de uma pessoa surda exige uma dedicação a mais, pois é preciso aprender a figura, a palavra e o sinal. “São todos alunos muito aplicados”.

A mãe Adriana Guttuzzo, 48, conta que a família recebeu todo o suporte quando descobriu que o filho tinha perdido a audição em consequência do uso de medicamentos. “Aprendemos a importância de estarmos envolvidos para estabelecer uma comunicação com ele. Foi aqui que ele desenvolveu capacidades e aprendeu a ter identidade surda, a ter vontade própria e buscar seu caminho”, ressalta.

Cleusa de Oliveira, instrutora no Iles e professora de Libras na UEL
Cleusa de Oliveira, instrutora no Iles e professora de Libras na UEL | Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha

Ao escutar a fala desses ex-alunos, Franciscão diz que só tem que agradecer a oportunidade em poder ajudar tantas pessoas. "Em todos os detalhes da nossa história, vejo a mão de Deus. Essa escola nasceu pobre e somos pobres. Infelizmente, as autoridades não olham como deveriam. Não tem um grão de areia aqui que não foi fruto da união da comunidade londrinense. A comemoração é de todos”, desabafa.

SERVIÇO - Convites para o jantar e mais informações sobre o Iles pelo fone (43) 3325-7054 ou 3336-5676.

mockup