''Sou louco, mas não sou burro'' (Armando). ''A verdadeira loucura reside naqueles que se submetem à normalidade das coisas'' (Desconhecido). ''Loucos nós somos. Mas é normal.'' (Robson).
As frases escritas por portadores de doenças mentais durante a Semana de Luta Antimanicomial, realizada em maio em Londrina, decerto despertaram a curiosidade de quem passava pelo Calçadão e se deparava com uma campanha que busca eliminar o estigma da loucura. O preconceito generalizado que existe na sociedade e se reproduz até entre os familiares, que escondem de si próprios que tem um parente ''louco'', traz a carga da discriminação que sempre envolveu quem ultrapassa os limites do que é considerado ''normal''.
Na luta pela reinserção do doente mental na sociedade, a Lei Antimanicomial, número 10.216/2001, tem importância fundamental, mas seu cumprimento exige trabalho árduo para que uma rede alternativa de saúde funcione efetivamente, deixando para trás os dias em que os pacientes eram recolhidos por longos períodos em hospitais psiquiátricos, chegando a um ponto de cronificação da própria doença.
A criação dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) é parte essencial dessa rede alternativa. Em Londrina, o Caps III, na Zona Norte, destinado ao tratamento de adultos que apresentam quadros de doença moderada ou grave, existe há 13 anos e conta com uma estrutura adequada sob muitos aspectos, mas defasada para o atendimento de uma população que cresceu desde a sua implantação.
Numa visita ao local dá para notar o empenho dos profissionais para prestar atendimento, contando com uma estrutura que serviria para uma cidade de 250 mil habitantes, sendo que Londrina tem hoje cerca de 600 mil. Além do Caps III, a cidade conta ainda com o Caps-I, destinado ao tratamento de crianças, e o Caps-AD, para tratar dependentes de álcool e drogas. Mas o tamanho da cidade demandaria uma rede muito maior.
No Caps III, que conta com pronto-socorro e ambulatório, é intenso o movimento na recepção, que permanece aberta 24 horas por dia. Com capacidade para atender por mês cerca de 350 pacientes em três modalidades de tratamento: Intensivo, com internação em períodos de curta permanência (de sete a dez dias); Semi-Intensivo, destinado a pacientes que vão de uma a três vezes por semana ao Caps; e Não Intensivo, que restringe a presença a até três vezes por mês; o Centro chega a receber 1,5 mil pessoas mensalmente, incluindo o movimento do PS e do ambulatório, o que demanda esforço redobrado da equipe para cuidar de todos os casos.
Quando o paciente sai da crise pode também receber um tratamento que o leva a passar o dia no Caps, onde é medicado e participa de uma série de atividades, voltando para casa no fim da tarde.
Com bom-humor, a coordenadora geral do Centro, a psicóloga Isabela Temispupim Cesar, conta nos dedos o número de profissionais encarregados de fazer um trabalho que sempre exige esforço extra: dois psiquiatras, seis psicólogas, duas assistentes sociais, uma terapeuta ocupacional, um educador físico, quatro enfermeiras e 12 auxiliares de enfermagem. Eles atendem da área urbana e rural da cidade, além dos pacientes acolhidos em abrigos. ''Acho que conseguimos dar conta do recado porque formamos uma equipe exigente.''

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