Igrejas cristãs
realizam encontro e
superam conflitos
Católicos e protestantes rezam juntos durante uma semana inteira
Lúcio Horta
Mario CesarUnião tranquilaO pastor Carlos Jeremias e a católica Nelsa: casamento e fé superaram diferenças entre religiões Superar as feridas históricas ainda hoje existentes entre católicos e protestantes. Promover a aproximação das igrejas cristãs. Respeitar e admitir as particularidades de cada uma.
Com esses objetivos, representantes de seis igrejas de Londrina e Cambé realizaram desde a última segunda-feira a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O encontro termina hoje, na Catedral de Londrina, com celebração ecumênica comandada pelo reverendo Luiz Caetano Grecco Teixeira, da Igreja Anglicana. Ele é secretário regional do Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai).
Milton DóriaUma só vozO reverendo anglicano Luiz Caetano Grecco Teixeira: ‘Objetivo é reunir igrejas para ação em comum’‘‘O objetivo da semana não é juntar as igrejas, mas reuni-las todas para uma ação em comum’’, explica Teixeira. Além da Igreja Anglicana, a semana reúne fiéis e representantes das igrejas Católica, Luterana, Presbiteriana Independente, Presbiteriana do Brasil e Metodista. Durante o encontro, padres e pastores puderam pregar em igrejas diferentes. A organização do evento ficou por conta do Centro Ecumênico de Estudos da Bíblia (Cebi), em colaboração com o Clai.
A semana é organizada pelo segundo ano consecutivo em Londrina. No Brasil, encontros como esse são realizados desde 1968 em diversas cidades. A discussão em torno da unidade das igrejas, no entanto, é muito mais antiga: começou ainda em 1740, na Escócia, entre protestantes pentecostais. A Igreja Católica abriu o diálogo no começo deste século, mas só admitiu oficialmente a importância do movimento ecumênico com o Concílio Vaticano Segundo, em 1964. Quatro anos depois, a semana passaria a ser preparada em conjunto.
‘‘Esse movimento é fundamental. Diante de todas as divisões que aconteceram no mundo, nada deu certo, então apelamos para a oração’’, diz o frei Adelino Frigo, coordenador de pastoral da Arquidiocese de Londrina. Para ele, a distância criada entre as igrejas, por motivos históricos, é ‘‘ridícula’’ e precisa cada vez mais ser superada.
‘‘É possível respeitar as diferenças. Em torno do sacramento pode haver algumas divergências, mas a palavra é igual’’, diz o frei. Ele acredita que no futuro próximo será formada uma só igreja, ainda que com denominações diferentes. ‘‘As particularidades de cada uma são riquezas que devem ser preservadas’’, diz. ‘‘O avanço que temos com esta semana é grande, e a tendência é que o movimento cresça ainda mais.’’
O caminho para a aproximação, no entanto, ainda é longo e muitas vezes doloroso. A história, sobretudo das correntes católica e protestante, foi marcada por relatos de perseguição e intolerância. O reverendo Luiz Caetano observa que em todos os problemas religiosos ocorridos durante séculos - desde a Inquisição até recentemente na Irlanda do Norte - não houve sempre uma ‘‘vítima’’ de um lado ou de outro, e sim perseguidores de ambos os lados. ‘‘Estas feridas têm que ser curadas no contexto do perdão’’, afirma.
Um exemplo de como as diferenças religiosas podem conviver lado a lado pode ser observado em Londrina. O pastor Carlos Jeremias Klein, da Igreja Presbiteriana Independente, está casado há 31 anos com a católica praticante Nelsa Beloni Klein. ‘‘Da nossa parte não houve dificuldade. Sempre conversamos sobre religião, mas sem briga. A diferença até serviu de enriquecimento e nos fez crescer espiritualmente’’, conta Carlos Klein, que também faz parte do Cebi. ‘‘Nesta Semana de Oração, as pessoas estão descobrindo a unidade, notam que há mais semelhanças que nos unem do que diferenças nos separam.’’
Nelsa Klein lembra que quando casou com o pastor, na cidade de Tupi Paulista, interior de São Paulo, era pouco comum o casamento entre pessoas de religiões diferentes. Por isso, a união causou estranheza em algumas pessoas. Um padre, amigo da família, chegou a dizer: ‘‘As diferenças são grandes e o casamento não vai durar’’.
Estava errado.

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