A diocese de Cornélio Procópio entra esta semana com uma ação judicial contra a Polícia Militar do Paraná, pela prisão, na sexta-feira, do padre Clóvis Almeida, 27 anos, durante a operação de reintegração de posse da Fazenda Cachoeira, em Sapopema (132 km ao sul de Cornélio Procópio).
O padre foi detido na entrada da cidade, transportando três sem-terra (dois menores), após ter passado duas vezes por uma barreira policial. Não houve registro da prisão do padre nos informes oficiais da Secretaria de Estado da Segurança Pública, mesmo ele tendo sido encarcerado por mais de cinco horas na delegacia de Curiúva, sede da comarca.
Por volta das 10 horas, padre Clóvis foi para a região da Fazenda Cachoeira prestar assistência religiosa. Ele parou numa barreira policial, foi revistado e questionado sobre o que fazia na região. Liberado, seguiu em frente. Cerca de meia hora depois retornou para a cidade, dando carona aos sem-terra.
Ele parou na mesma barreira policial, foi revistado novamente e liberado. No entanto, os soldados informaram por rádio a delegacia de Sapopema de que o padre transportava sem-terra e precisava ser interceptado.
Na entrada da cidade, o cabo João Maria e o tenente Tebas pararam o carro. O grupo foi detido diante de vários moradores de um conjunto habitacional. A reportagem da Folha presenciou a prisão, mas foi impedida de fotografar o ato. Na esquina da delegacia, uma viatura da PM ficou atravessada na rua bloqueando o acesso da imprensa.
‘‘Fui ofendido verbalmente pelos policiais. Eu disse que havia visitado um doente e me desrespeitaram, me impediram de fazer a assistência religiosa aos acampados de Sapopema, serviço que fui designado por Dom Getúlio Teixeira Guimarães, bispo da diocese de Cornélio Procópio’’, comentou. Ele disse que foi levado de camburão para Curiúva, onde estavam presos oito sem-terra. Padre Clóvis afirmou que, mesmo tendo curso superior - constitucionalmente tem direito a prisão especial - ficou detido na mesma cela que os sem-terra, junto com dois menores.
O padre só foi liberado após a intervenção do advogado Marcos Brene, de Sapopema, e o pároco da cidade, padre Oswaldo Bachega. ‘‘Além de sermos humilhados na delegacia, ficamos sem qualquer refeição. Fui liberado às 17 horas e não tinham nos servido nada’’, ressaltou. Mas o que mais indignou o padre foi o fato de ter sido impedido de prestar assistência religiosa ao grupo.
Lotado na paróquia de São Jerônimo da Serra, padre Clóvis Almeida recebeu, no sábado, vários telefonemas anônimos fazendo ameaças. ‘‘Nos telefonemas, me diziam que era para eu deixar de trabalhar com os sem-terra e para tomar cuidado’’, denunciou.
Devido às ameaças, padre Clóvis está hospedado numa paróquia da região que prefere manter em sigilo, até que a diocese tome alguma providência. O bispo de Cornélio Procópio, Dom Getúlio Guimarães, não foi encontrado ontem para comentar o assunto. Ele está viajando e só retorna no sábado para a região.

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