O município de Uraí (26 km a oeste de Cornélio Procópio) quer entrar para o livro dos recordes. O que pode tornar a cidade de 12 mil habitantes conhecida mundialmente é um terço gigante, feito em madeira maciça, afixado no início deste mês na parede de uma das quatro naves da Igreja Matriz Nossa Senhora Aparecida. A peça será abençoada hoje pelo bispo dom Getúlio Teixeira Guimarães, de Cornélio Procópio. O grande crucifixo, medindo 3 m por 1,90 m, foi esculpido em timburi (madeira semelhante ao cedro) e prende-se por correntes a contas gigantes, cada uma pesando 4,5 quilos.
  A idéia de construir o terço nasceu de uma conversa entre o agricultor e escultor José Benedito Gomes, de 65 anos, e o padre Antonio Luiz Martins, que lhe pediu que restaurasse um antigo crucifixo, doado à paróquia em 1973. O Cristo estava com um braço quebrado. ‘‘Meus trabalhos não têm emendas, são feitos a partir de um só bloco de madeira, não gosto de colar pedaços’’, revela o escultor.
  Como a causa era nobre, seo José abriu uma exceção. Caprichoso, esculpiu também uma medalha que traz a imagem de Maria. Foram uns cinco meses de trabalho, feito à noite, domingos e feriados. ‘‘A intenção foi deixar uma obra para a igreja e também uma lembrança da minha família’’, explica. O próximo desafio do agricultor será uma Nossa Senhora em tamanho natural, que deverá ocupar a nave oposta da matriz.
  Seo José aprendeu o ofício por acaso, ainda criança, brincando com um canivete em pedaços de pau. ‘‘Nem sabia que tinha isso de ser escultor. Daí me falaram que o que eu estava fazendo era escultura.’’ Porém ele nunca pensou em viver de sua arte. ‘‘A agricultura toma 90% do meu tempo. Isso aqui é um hobby. O que eu faço deixo para a família. E depois, as pessoas não valorizam este tipo de trabalho’’, argumenta o artista, que já foi personagem de reportagem publicada pela Folha de Londrina em outubro de 1969. Na época, a principal fonte de inspiração de seo José eram os animais, criaturas sempre presentes no seu universo rural.
  O terço, que pode ser o maior já confeccionado até hoje, pesa 390 quilos. Crucifixo e contas tiveram que ser transportados separadamente, e mesmo assim a operação exigiu a participação de um grupo de 10 homens. A fixação foi feita em uma estrutura de ferro, para não comprometer a antiga parede. ‘‘O ideal seria que tivéssemos um espaço maior, mas nossa igreja é pequena’’, afirma o padre Antonio.
  Além da recuperação do antigo crucifixo – que agora integra o terço gigante – o pároco está resgatando os vitrais que compõem a arquitetura da matriz, já trouxe de volta a pia batismal e tenta localizar o lustre original, desaparecido há anos. O altar também ganhou um colorido especial, com a colocação de um grande mosaico. ‘‘Aos poucos, vamos tornando nossa igreja mais bonita’’, diz.

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