Igreja e MST acolhem expatriados
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sábado, 25 de julho de 1998
Valmir Denardin 
A volta dos brasiguaios ao Paraná está sendo comandada por dois movimentos: um religioso e outro sócio-político. Apesar de não admitirem claramente, a Pastoral do Migrante - ligada à Igreja Católica - dos dois países e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) brasileiro recrutam, treinam, transportam e abrigam os emigrantes na volta ao seu país natal.
Em San Alberto, município a 88 quilômetros da fronteira com Foz do Iguaçu, a Pastoral do Migrante tinha, há uma semana, um cadastro com 120 nomes de chefes de família interessados em retornar ao Brasil e ingressar no MST. O ferreiro brasiguaio Valírio Rodrigues de Freitas, de 35 anos, um dos coordenadores da entidade no município, já estava convocando o grupo para reuniões.
Ney de SouzaIgrejaZenaide Guarnieri, da Pastoral do Migrante: apoio moral do bispoVamos mostrar a realidade e explicar que não vai ser fácil conseguir terra no Brasil, afirma. Segundo Freitas, a Pastoral do Migrante decidiu atuar na repatriação depois de assistir a iniciativas desesperadas e sem qualquer organização de grupos que voltavam por conta própria. Muitos não tinham nem o dinheiro da passagem. Aí alguns empresários daqui cederam caminhões para que fizéssemos o transporte de 150 pessoas.
Na opinião da freira gaúcha Maria Lourdes Vendrúsculo, de 59 anos, coordenadora da Pastoral em San Alberto, ao ajudar os brasiguaios a Igreja está cumprindo seu papel humano e cristão. Estamos tentando garantir os direitos a vida, dignidade, casa, terra e comida reservados por Deus, prega. A coordenadora da Pastoral do Migrante em Foz do Iguaçu, Zenaide Guarnieri, de 42 anos, - também freira e gaúcha - diz que a iniciativa conta com o apoio moral do bispo regional, dom Olívio Aurélio Fazza.
Em entrevista à Folha, Dom Olívio negou que a Igreja Católica na região tenha responsabilidade no retorno dos brasiguaios. Mas eles são brasileiros. São parte de um problema nacional, declarou o bispo, de 73 anos. De acordo com ele, as acusações de que a Igreja está incentivando o movimento são feitas por pessoas que não conhecem a realidade.
Ney de SouzaRealidadeValírio de Freitas: dificuldadeSegundo a Folha apurou, uma das principais funções da Pastoral do Migrante de Foz, ao receber os brasiguaios, é agrupá-los seguindo o critério de região de origem no Paraguai. O objetivo é fazer com que famílias com identidade entre si sigam para o mesmo acampamento e sejam vizinhas em um futuro assentamento no Paraná.
Além de auxiliar no recrutamento e no transporte, o MST encaminha as famílias que chegam para reforçar acampamentos no Oeste do Estado. Áreas públicas ou sob intervenção federal têm prioridade. Já há uma grande participação de brasiguaios em acampamentos do MST nos municípios de São Miguel do Iguaçu, Diamante do Oeste e Ibema.
No dia 21 de junho, a primeira grande coluna de brasiguaios em retorno ao País, com 320 famílias, invadiu um centro de formação de professores da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), em São Miguel do Iguaçu (45 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu).
Com 14,5 hectares - metade dos quais cobertos com mata nativa - a proprietade quase foi pequena para abrigar todas as famílias. O próprio MST admite que a área não poderá ser destinada à reforma agrária, mas considera que o local é estratégico para apressar o processo de assentamento dos sem-terra.
De acordo com levantamento do MST, já há 1.300 famílias de brasiguaios - que somam 5.200 pessoas - entre as 3.100 famílias de sem-terra no Oeste paranaense. No contingente do Estado, o grupo representa quase 15% das cerca de 10 mil famílias de acampados.
Para Alfeu Genaro, de 32 anos, integrante da coordenação estadual do MST no Oeste do Estado, o retorno dos brasiguaios é um movimento espontâneo. Eles estão se organizando, retornando ao Brasil e se juntando a nós. Nós apenas os acolhemos e levamos para os assentamentos, diz Genaro. Essa é uma maneira de organizar os pobres para lutar pela reforma agrária.


