Mário CésarPadre Manoel: ‘Função de denúncia’Fraternidade e Educação - A Serviço da Vida e da Esperança. Este é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, que foi aberta oficialmente na última quarta-feira, dia 25, em todo Brasil. Organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outros órgãos ligados à Igreja Católica, a campanha tem por objetivo geral, além da evangelização, despertar o espírito comunitário na sociedade brasileira. Para isso, a cada ano é escolhido, entre os diversos problemas encontrados no País, um tema específico para ser discutido e trabalhado.
A educação foi lembrada este ano por ser um ponto essencial no desenvolvimento do País. Apesar disso, a taxa de analfabetismo entre os brasileiros ainda é uma das mais altas do mundo. Em 1995, por exemplo, o Brasil ocupava a 93ª posição no ranking do analfabetismo.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) identificou ano passado 22,8 milhões de analfabetos, o que representaria 17,2% dos brasileiros. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), esse número pode alcançar 32 milhões. Somente no Paraná, 10% da população com 10 anos de idade ou mais, e com menos de um ano de estudo, é analfabeta. Para quem tem 50 anos ou mais, a taxa é bem maior: 31,8%.
A coordenadora da Pastoral da Educação em Londrina, Ires Arruda, comenta que a erradicação do analfabetismo foi apresentada como um dos quatro objetivos principais da campanha deste ano. Os outros são: investir na dignidade da pessoa humana; crescimento e fortalecimento da comunidade; investir na formação do cidadão. ‘‘A campanha, por isso, quer também trabalhar a educação integral, e não só formal. Ou seja, desenvolver todos as dimensões da pessoa humana’’, destaca. ‘‘Infelizmente algumas escolas estão descumprindo essa função, em favor de uma formação tecnicista.’’
Mário CésarIres Arruda: ‘Educação integral’
Em Londrina, a organização começou a trabalhar a campanha em dezembro. Desde então, já foram feitos três encontros na arquidiocese, de onde saíram diversas idéias de ação e foram criadas subcomissões de trabalho. Entre elas, estão as comissões das escolas, das paróquias, da comunicação e da liturgia. Também estarão sendo desenvolvidos trabalhos dentro de cada decanato (entidade que reúne diversas paróquias de uma arquidiocese), sobretudo para envolver no projeto o maior número de professores que já estão comprometidos com trabalhos realizados pela igreja.
‘‘O primeiro passo é a conscientização do texto-base, que mostra a realidade nacional em relação ao tema e os critérios para agir dentro dessa realidade’’, explica Ires Arruda. ‘‘Cada pessoa envolvida será multiplicadora desse trabalho.’’ O texto-base citado pela coordenadora da Pastoral é uma espécie de manual produzido pela CNBB, não apenas sugerindo formas de agir como também fazendo uma dura análise da realidade atual da educação brasileira. Na capa da publicação - e também nos cartazes e material de divulgação da campanha -, a fotografia de Sebastião Salgado mostra uma criança do assentamento Barra da Onça, perto do município de Canindé de São Francisco, no Estado de Sergipe, sentada numa cadeira escolar. É um exemplo de como o trabalho organizado pode trazer resultados positivos.
Entre as ações práticas para trabalhar com a alfabetização em Londrina, a principal é um convênio entre a Pastoral da Educação e o Centro e Estudos Supletivos (CES) de Londrina, vinculado ao Núcleo de Educação. A idéia é identificar a demanda de pessoas na Cidade que não tiveram oportunidade de estudar e que ainda não foi atendida. A partir daí, as turmas seriam organizadas. A igreja entra com a estrutura física, cedendo as salas de aula, e também com professores voluntários. E o CES - que atua na alfabetização de adultos nos 30 Núcleos de Educação do estado - com toda a estrutura pedagógica, inclusive capacitação dos professores, material escolar e certificados de 1ª a 4ª séries, 5ª a 8ª e também de 2º grau.
Por ser um objetivo bastante amplo, porém, a Igreja entende que o mais importante não é simplesmente a erradicação do analfabetismo ou outros objetivos práticos da campanha. O fundamental, na verdade, é provocar na sociedade a discussão e a conscientização sobre o problema educacional no Brasil. Só assim forma - dizem os organizadores - estaria aberto o caminho para a verdadeira transformação. ‘‘Vamos tentar sensibilizar as pessoas sobre a questão. No Nordeste brasileiro, por exemplo, a situação é constrangedora’’, afirma o padre Manoel Joaquim Rodrigues dos Santos, assessor de comunicação da Diocese de Londrina.
O padre lembra que recentemente o Governo Federal também lançou uma campanha para valorização da educação no Brasil - ‘‘Toda Criança na Escola’’, divulgada na televisão pelo ministro dos Esportes, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. ‘‘O Governo fez esta campanha ‘nos ventos’ da Campanha da Fraternidade, que já estava definida muito antes. E o objetivo da nossa campanha é esse mesmo, provocar o Governo e mexer com as estruturas do País’’, diz. ‘‘Assim, a igreja cumpre uma de suas funções, que é a denúncia, que é tocar na ferida dos problemas nacionais.’’
Apesar de ser realizada oficialmente desde 1964, com anuência do Vaticano, a primeira edição da Campanha da Fraternidade ocorreu, na verdade, dois anos antes, em Natal, Rio Grande do Norte. A campanha foi idealizada por três padres responsáveis pelas Cáritas Brasileiras, durante o período da Quaresma, com objetivo de arrecadar fundos para projetos assistenciais. Depois, se expandiu pelo País.
Padre Manoel Joaquim lembra que, até 1971, todos os temas levantados durante a Campanha da Fraternidade estavam relacionados à própria Igreja. De 71 para cá, no entanto, os temas voltaram-se para a sociedade - principalmente para os excluídos - e se tornaram cada vez mais questionadores. Entre eles, estão violência, trabalho, fome, terra, menor, negro, mulher, moradia e política. Em 1997, a discussão foi em torno do encarcerado. Para o próximo ano, será sobre o desemprego.
O resultado, segundo padre Manoel Joaquim, tem sido bastante positivo. E não é para menos: no País existem pno mínimo 10 mil paróquias, todas com grande influência na sociedade. ‘‘100% das arquidioceses participam. Esta é a segunda maior campanha desenvolvida pela igreja no mundo, só perde para outra campanha feita na Itália’’, comenta o padre.
Apesar dos bons resultados, a Campanha da Fraternidade tem sido muito criticada, inclusive por setores da própria Igreja Católica. Para os críticos, a igreja deveria limitar sua influência na sociedade apenas à evangelização. ‘‘Essa crítica não é pertinente porque a função da Igreja é estar presente na vida das pessoas. E nenhum âmbito da sociedade escapa da Igreja’’, aponta o padre, que acusa a postura dos críticos de ‘‘reducionista’’ e ‘‘mafiosa’’.

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