Tomazina - A história do Norte Pioneiro do Paraná foi escrita a partir da coragem de ''desbravadores do sertão'', que aceitaram o desafio de se aventurar por terras até então desconhecidas, apesar de promissoras. A colonização iniciada na segunda metade do século 19 deu origem a diversas cidades de uma região que hoje abriga mais de 500 mil pessoas. Conhecer essa história, que está em livros, sites, jornais e outros documentos, é uma oportunidade de refletir sobre a ação transformadora, positiva ou negativa, que o homem exerce sobre o ambiente. Quando a história é contada por pessoas que a viveram, a reflexão pode ser ainda mais interessante.
Na cidade de Tomazina (101 Km ao sul de Jacarezinho), duas senhoras, Natália Aires e Isaura Goulart Faria, viveram grande parte da vida do município e da região. Homenageadas na última semana como ''noveneiras'' da igreja matriz da cidade, elas são exemplos de tranquilidade, alegria e amor pelo lugar onde vivem há tantos anos.
Depois da cerimônia, elas conversaram com a equipe da FOLHA. Dona Natália recebeu a reportagem em sua casa, a duas quadras da igreja, para onde foi caminhando, sem reclamar, mesmo com o aniversário de 91 anos se aproximando. As velas serão assopradas no dia 29 de dezembro. Enquanto isso, dona Isaura aguardou com a família no espaço de festas da paróquia, que reunia muitas pessoas em um divertido bingo beneficente.
Nascida em Tomazina, em 1916, quando o município tinha apenas 26 anos de instalação, dona Natália só ficou fora da cidade por cinco anos, na época que ainda era solteira e foi trabalhar em São Paulo (SP). Lúcida e de ótimo humor, ela conta que é uma boa costureira e só abandonou a profissão porque já não enxerga o buraco da agulha para passar a linha. ''Se não fosse a minha vista eu estaria trabalhando'', garante.
Sobre a cidade, dona Natália tem vastas lembranças. Ela acompanhou a construção de diversas casas do município, que hoje tem quase 10 mil habitantes. ''Toda vez que uma casa começava a ser construída a gente ia correndo ver. Todo mundo se conhecia. Quem não era parente, certamente era compadre ou comadre. Hoje em dia os vizinhos nem se falam mais'', lamenta.
Segundo ela, o Rio das Cinzas, que corta o município, era a sua piscina, frequentada quase diariamente na companhia de seu pai, que foi farmacêutico mas adorava pescar. ''O rio era farto, quase todo dia comíamos peixe.'' Sobre as mudanças que o rio sofreu ao longo dos anos, dona Natália preferiu não emitir opinião, pois, morando em um dos lugares mais altos da cidade, ela já não visita há algum tempo seu antigo ''clube''. ''Se eu for lá, depois tenho que subir uma rampa enorme. Com a minha idade só quero subir rampa se for para o céu'', disse, aos risos.
A visita à casa de dona Natália, onde ela mora com a filha Ana Maria, é uma breve viagem ao passado. Nas paredes fotos em preto e branco, a arquitetura é dos anos 20 e a janela da sala abre para uma rua toda calçada com paralelepípedos. As visitas são praticamente proibidas de recusar o cafezinho.
Quando o repórter, seis décadas e meia mais novo, pede um conselho para chegar com tanta saúde aos 90 anos, dona Natália não tem nenhuma dica milagrosa. ''O meu conselho é não fazer mal para ninguém, pois o mal que fazemos para os outros volta para nós mesmos'', ela diz. Para encerrar a entrevista, faz questão de destacar a sua felicidade. ''Sou velha e pobre, mas sou feliz'', finaliza dona Natália, novamente sorrindo.
Dona Isaura Goulart Faria não nasceu no Paraná, é mineira de Ouro Fino. Ela veio ao mundo em 3 de julho de 1912. Ao Paraná só chegou em 1949, com o marido Pedro Antônio de Faria e os quatro filhos, para trabalhar em uma fazenda com 60 mil pés de café comprada pelo marido. Segundo ela, os mosquitos foram os primeiros inimigos quando a família Faria chegou a Pinhalão, onde residiram por 10 meses antes de partirem para Tomazina, que, naquele tempo, dona Isaura considerou uma ''cidadezinha bem fraquinha''. Para atender à equipe de reportagem, ela abandonou o bingo por alguns instantes e ficou feliz ao saber que seria entrevistada. ''Recentemente fui visitar Ouro Fino e lá me entrevistaram também'', contou orgulhosa.
Como as outras muitas famílias que vieram construir suas vidas em solo paranaense, os primeiros anos por aqui foram de muito serviço. ''Eu cozinhava na roça, jogava o milho que produzíamos pra dentro do paiol, torrava farinha, ordenhava as vacas e cuidava dos filhos'', enumera.
Ainda se lembrando das dificuldades de 50 anos atrás, a exemplo de dona Natália, ela recorda que a união do povo rendeu uma estrada, que fazia a ligação da zona rural com Tomazina. ''Quando vínhamos à missa colocávamos as crianças nos lombos dos cavalos e vínhamos puxando a pé. Então, o povo da roça se uniu e construímos uma estrada, à base de enxadão. A partir daí já começamos a vir para a cidade de charrete'', relata. Sobre a geada de 1975, que dizimou boa parte dos cafezais de todo o Norte do Paraná, ela se lembra da frase que disse ao ver os pés queimados ao amanhecer: ''Mataram os nossos cafezais''.

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