Igreja ameaça excomungar gestante
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 1996
Lucinéia Parra<br> Sucursal de Maringá 
A informação de que a gestante D. (ela pediu para não ser identificada) que teve autorização da Justiça para praticar aborto, seria excomungada pela Igreja Católica, vem causando polêmica em Maringá. Além de D. seriam excomungados o juiz, Luiz Carlos Gabardo, o promotor Maurilio Palhares, o marido de D, e todas as pessoas envolvidas na autorização e ato do aborto, inclusive os médicos. A gestante pediu autorização judicial para abortar porque foi constatado, através de exames médicos, que o feto tem anencefalia (ausência de cérebro).
O arcebispo metropolitanto de Maringá, d. Jaime Luiz Coelho, explicou ontem que a excomunhão é automática para quem procurar o aborto. Esta determinação, segundo ele, está prevista no Código de Direito Canônico. Eu não tenho poder de excomungar, disse. Segundo d. Jaime, o próprio papa João Paulo II lembra que a legislação da Igreja prevê a excomunhão sobre todos aqueles que cometem o crime de aborto.
D. Jaime explicou ainda que a excomunhão se concretiza a partir do aborto. Se insistirem na prática do aborto, eles estarão excluídos dos rituais da Igreja. O bispo disse que para reaver os direitos como católicos, as pessoas envolvidas terão que assumir publicamente que estão arrependidas. Acredito que estas pessoas não conheciam as leis da Igreja e que agora elas poderão não levar adiante a decisão do aborto, justificou.
Para o juiz Luiz Carlos Gabardo, que concedeu a autorização para o aborto, a polêmica é uma questão de momento. Ele não quis comentar a legislação da Igreja Católica. Disse que sempre foi católico praticante e que vai continuar frequentando a Igreja. Me sinto bem assim. Deus é um só, afirmou.
Já o advogado César Augusto Moreno, que representa D., disse ontem que o pedido de interromper a gravidez de sua cliente foi feito dentro dos princípios da ética e do Direito. Quando ela (D) me procurou já estava com toda documentação que comprova que o feto tem anencefalia e que não iria se desenvolver como ser humano. Ele também não quis comentar a opinião de Dom Jaime. Não sou católico, mas sou cristão e em nenhum momento, quando entramos com o pedido de aborto, quisemos confrontar com a Igreja Católica, garantiu.
Segundo Moreno, sua cliente está fora de Maringá. Ela está muito abalada com toda esta polêmica criada sobre o assunto. Ela está sob cuidados médicos e só deve retornar na semana que vem para tomar um decisão, afirmou. Moreno disse que D. ainda não realizou a cirurgia de retirada do feto. A minha cliente está postergando a decisão, apesar de não haver outra alternativa, já que ela corre risco de vida, explicou.


