Que os idosos nem sempre encontram uma alma generosa para lhes dar lugar nos ônibus urbanos todos sabem e, infelizmente, pouco podem fazer. Mas há um problema ainda mais grave no trajeto desses passageiros que, em pé, enfrentam um calvário diário para chegar a algum destino em Londrina: a superlotação. Este sim, um incômodo que poderia ser evitado, dependendo apenas da disposição das empresas de transporte coletivo.
''Tenho medo de sofrer um ataque do coração dentro do ônibus, porque já fui internado. É muito abafado e o ônibus pode dar umas freadas bruscas'', contou o aposentado Aparecido Rodrigues, 60 anos. Em pé e espremido entre outros passageiros, ele deu seu relato à reportagem da Folha na manhã de ontem, durante o trajeto da linha 601, com destino ao Terminal Acapulco (Zona Sul). Eram 10h40 - portanto, fora do horário de pico - quando o aposentado deixou o Terminal Central. Somente às 11 horas ele conseguiu se sentar.
Cerca de 15 idosos seguiram o trajeto na mesma situação de Rodrigues. Segundo relato de vários passageiros, a 601 é uma das linhas que mais concentra usuários de idade avançada, especialmente no horário da manhã. Ao longo do percurso vários outros idosos sobem no coletivo pela porta traseira. Há ocasiões, como a que a reportagem acompanhou ontem, em que o problema não é a má educação dos jovens: a maioria dos assentos já estava ocupada por idosos ou mães com crianças. Simplesmente não havia onde acomodar a todos.
''Já estou até acostumado a andar assim nos ônibus'', disse Manoel Marques da Silva, 71 anos, ''abraçado'' ao suporte para deficientes por falta de espaço. ''Pelo menos Deus está me ajudando com saúde. Não adianta eu reclamar, porque uma andorinha só não faz verão'', brincou o aposentado, que é usuário de transporte coletivo há 30 anos. Entre os usuários, não há dúvidas de que a única forma de solucionar o problema seria aumentar o número de veículos por linha. ''Hoje eu tenho passe livre, mas já paguei muita passagem na minha vida. Isso não é justificativa para sermos maltratados. Nada é realmente de graça'', avaliou Amélia Maria de Melo, 71 anos.
Ser transportado nessas condições é mais um golpe para quem já tem uma vida sofrida, como a catadora de papel Glória Silvéria Mara, que, com problemas de saúde, não conseguiu se lembrar da própria idade. ''Tô bem veinha (sic), é só o que sei. De vez em quando a gente leva uns tombos aqui dentro'', relatou, também em pé, apoiada na porta do ônibus e segurando um saco de verduras.
De acordo com a recepcionista Jaqueline Ronche da Costa, 22 anos, usuária diária do transporte coletivo, há linhas que sempre concentram maior número de idosos, como a 601, a 203 (Ouro Branco) e a 202 (Jardim Roseira), porque passam pela prefeitura, clínicas e hospitais. Sabendo disso, ela acredita que as empresas deveriam colocar mais ônibus pelo menos nestas linhas. ''Acho até que poderiam disponibilizar alguns coletivos só para os idosos. Além de sentar, eles precisam de cuidados especiais no embarque e desembarque'', sugeriu.

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