A história de vida de quem nunca aprendeu a ler e a escrever é marcada por situações constrangedoras. Não conseguir identificar uma linha de ônibus, não ser capaz de localizar endereços ou diferenciar produtos no supermercado são algumas das dificuldades pelas quais passam um analfabeto. Fora isso, tem a questão da eterna dependência do outro. Quando se começa a reconhecer as letras do alfabeto e juntá-las passa a fazer sentido, a sensação é de liberdade.
É essa a sensação que Isabel Valote Mafra, de 60 anos, começa agora a experimentar. Há pouco mais de um mês, ela iniciou o curso de alfabetização para adultos no Centro de Convivência da Pessoa Idosa (CCI) da zona leste de Londrina e, aos poucos, começa a se familiarizar com o abecedário. "Não saber ler é a coisa mais triste do mundo", atesta.
Isabel ainda se lembra com tristeza do dia em que não conseguiu chegar com a filha de apenas sete meses de idade ao Hospital Infantil. Sem conhecer o endereço, ela recebeu tantas informações desencontradas que acabou se perdendo no caminho. "Andei muito sem achar o hospital e não tinha dinheiro. Sentei na rua e comecei a chorar. Por sorte, um policial me viu e parou para oferecer ajuda. Disse que eu estava muito longe, mas que iria me levar até lá."
Recentemente, Isabel passou por novo constrangimento. No supermercado onde costuma fazer suas compras, chá e café são oferecidos como cortesia aos clientes, mas o conteúdo das garrafas térmicas é identificado por etiquetas. "Queria tomar café, mas não sabia qual era a garrafa certa. Pedi ajuda à faxineira do mercado e ela disse para eu me virar." Foi o que ela fez com o pouco que já aprendeu no curso de alfabetização. "Dei umas voltas no supermercado e ao voltar lá onde estava o café, com esforço consegui ver as letras. Reconheci a palavra que fica no pote onde guardo café na minha casa. Acho que não vou mais passar aperto e acho que a faxineira foi muito sem educação."
Maria Aparecida Silva, de 74 anos, também começa a ter contato com o mundo das letras. Criada só pelo pai, ela não teve oportunidade de ir à escola quando criança. "Meu pai dizia que ia aprender a escrever carta para namorado e ele não queria." Depois, mais velha, foi trabalhar na roça. Quando se casou, os filhos foram chegando e aí já não teve mais oportunidade. "É ruim entrar em uma loja e não saber o preço das coisas, no mercado, não saber de nada. Para pegar ônibus, vejo só as primeiras letras." A idade, acredita Maria Aparecida, dificulta um pouco o aprendizado, mas ela segue firme com o lápis na mão. "Estou me sentindo bem sabendo ler e escrever."
O curso oferecido pelo CCI Leste surgiu de uma parceria entre a Prefeitura de Londrina, que mantém o espaço, o Rotary Alvorada e a Unifil. O curso de alfabetização é ministrado pela presidente do Rotary Alvorada, Lázara Caramori, que também é professora e coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisas da Unifil, onde o curso foi registrado como projeto de extensão. "Eu nunca tinha trabalhado com alfabetização de adultos. Fiz um curso com a professora Vera Bahl, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), que tem experiência na alfabetização de adultos e também é rotariana. Outras rotarianas também passaram pelo curso, assim como os estagiários da Unifil que atuam no projeto", contou a professora.
Atualmente, nove alunas frequentam o curso de alfabetização no CCI Leste. As aulas acontecem às segundas-feiras, das 9 às 11 horas. "Aqui não é uma escola. Nosso objetivo é que os alunos leiam e escrevam, que saibam se virar. Queremos promover a cidadania e a inclusão social."

FISIOTERAPIA
Além de três rotarianas, o curso conta com a colaboração de nove estagiários do curso de Fisioterapia da Unifil. Lázara explica que a iniciativa de levar estudantes de um curso da área de saúde para o projeto partiu da vontade de formar profissionais completos. "Não adianta o aluno sair da faculdade apenas com a formação técnica. Como professora, quero formar profissionais humanos, que tenham capacidade de se colocar no lugar do outro, que tenham respeito pelos idosos, que sejam éticos. Quero trabalhar os valores humanos, a cidadania. Penso que todas as universidade têm que lançar profissionais completos no mercado", destacou.
Pela metodologia adotada no curso, em três meses os alunos já deveriam estar alfabetizados, mas Lázara entende que esse tempo pode não ser o mesmo para todos os alunos. "Cada um tem um ritmo diferente e devemos respeitar, mas até o final do ano, acredito que todos estarão lendo e escrevendo."

SERVIÇO - O CCI Leste fica na Rua Gabriel Matokanovic, 260, no Jardim da Luz. O telefone é o 3375-0307.

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