Segundo o Ippul, as pessoas gostam do estilo de vida rural e não têm intenção de se mudar, mas não conseguem mais sobreviver sem a cidade
Segundo o Ippul, as pessoas gostam do estilo de vida rural e não têm intenção de se mudar, mas não conseguem mais sobreviver sem a cidade | Foto: Gina Mardones



Moradores dos distritos rurais de Londrina vivem longe da cidade, mas dependem da zona urbana para trabalhar, ter acesso a serviços e até mesmo comprar itens básicos de subsistência, como alimentos e remédios. A mudança no perfil desta comunidade – que em outras décadas vivia do trabalho rural e praticava subsistência - chamou a atenção da equipe que está elaborando o plano diretor de Londrina. De acordo com o Roberto Alves de Lima Júnior, diretor do Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina), as demandas da população que vive na zona rural estão entre as prioridades do documento elaborado por uma equipe multidisciplinar e que vai nortear o desenvolvimento do município nos próximos dez anos.

Nas últimas semanas, o órgão realizou seis fóruns na zona rural para discutir os problemas dos distritos e a conclusão aponta para a necessidade de implementar medidas que incentivem o acesso ao trabalho e à renda nestas localidades sem, contudo, interferir na identidade das comunidades. "Em geral, percebemos que as pessoas gostam do estilo de vida rural e não têm intenção de se mudar, mas não conseguem mais sobreviver sem a cidade", apontou.

Sete distritos de Londrina (Guaravera, Irerê, Lerroville, Maravilha, Paiquerê, São Luiz e Warta) reúnem uma população de 17.156 habitantes. O Espírito Santo completa o time, mas sua população é computada pelo distrito-sede, no caso, Londrina. Guaravera é o distrito mais populoso, com 3.935 habitantes e densidade demográfica de 22,19 pessoas por quilômetro quadrado. A menor população é de Maravilha, que reúne 986 pessoas e densidade de 7,9 habitantes por quilômetro quadrado. A população da sede do município é de 489.545 pessoas e 935,68 habitantes por quilômetros quadrados.

MOBILIDADE
As reuniões para discutir o plano diretor tiveram que ser realizadas nos próprios distritos justamente por causa da maior demanda dos moradores: mobilidade. Em todos eles, a população reclamou da falta de estradas rurais em boas condições que permitam o deslocamento da população. "Eles acabam não tendo fácil acesso a compromissos fora dos distritos justamente porque não conseguem se locomover com facilidade. Por outro lado, dependem de Londrina para tudo: educação, saúde, comércio e serviços. O Ippul concorda que essa é uma demanda importante", afirmou, lembrando que outra necessidade é a oferta de mais linhas de ônibus.

Outra constatação da equipe é que a população rural demonstra total descrença em políticas públicas, o que ficou explícito na dificuldade de mobilização da comunidade para participar dos fóruns. "Além da divulgação tradicional no site da prefeitura e através da imprensa, visitamos lideranças locais, igrejas e templos para sensibilizar os moradores. Percebemos que houve resistência, pois a maioria acredita que as políticas públicas nunca saem do papel", diz, destacando que, em algumas reuniões, moradores citaram benfeitorias realizadas na época do prefeito Wilson Moreira (década de 1980) para exemplificar o "esquecimento" dos gestores municipais sobre os distritos.

Em relação ao cotidiano da população, as demandas individuais dos distritos são bem diferentes. Lima Júnior apontou que no distrito de Maravilha, por exemplo, a maior reclamação da população foi relativa à falta de comércio. No local não tem padaria, farmácia e outros pequenos estabelecimentos, o que obriga as pessoas a comprarem quase tudo que precisam em Londrina. "Não há interesse dos comerciantes em se estabelecerem no distrito, o plano diretor precisa pensar em estratégias para melhorar a atratividade", pontuou, lembrando que o documento vai revisar o zoneamento até mesmo para saber se o comércio é permitido.

Já em Lerroville, a equipe do Ippul identificou que os agricultores têm uma produção consistente de batata, aipim e leite. Escoar os produtos, porém, é um grande desafio por causa da má condição das estradas. "Eles apontam a necessidade de um entreposto que concentre o recebimento da produção, pois é complicado transportar individualmente para Londrina. É outra situação que impõe necessidade de estímulo às empresas", afirmou.

Irerê, para a equipe do Ippul, tem potencial para concentrar uma rede de serviços que, além de atender as necessidades da população, também seria capaz de gerar empregos. Isso porque o distrito concentra o terminal de ônibus que distribui passageiros para as outras localidades. "Todo mundo passa por Irerê. "O problema é que faltam empresas no distrito", lamentou, destacando que a industrialização através da presença de agroindústrias é uma demanda de todos os lugares, justamente pela capacidade de gerar empregos.

Por outro lado, o presidente do Ippul pondera que os distritos não ofertam mão de obra especializada justamente porque os moradores não conseguem terminar os estudos em função da dificuldade de transporte. "É uma questão a se resolver", acredita.

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