IDENTIDADE RURAL - Faltam empregos e oportunidades
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quinta-feira, 12 de abril de 2018
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Distrito com maior densidade geográfica em Londrina são 56 habitantes por quilômetro quadrado, Warta (zona norte) tem clima de cidade pequena. Oferece escola municipal e estadual até o nono ano, unidade básica de saúde e linhas de ônibus para Londrina e também para cidades da região. Foi por este motivo que a aposentada Maria José Fonseca, 78, decidiu deixar a zona norte de Londrina há nove meses para morar na Warta. "Londrina é muito agitada", opinou ela, que não contava, porém, que continuaria dependendo da cidade para resolver quase todas as necessidades.
"Não tem mais médico no posto de saúde. Sou doente e tenho que ir sempre para o Hospital Universitário", lamenta ela, que aponta também a escassez nos horários de ônibus, o que transforma qualquer ida a Londrina em uma verdadeira viagem. "Perco o dia todo em Londrina e ainda tenho que pagar táxi para voltar."
A dona de casa Lucia da Silva relata a mesma dificuldade e acrescenta que faltam empregos no distrito, o que obriga o marido e a filha a trabalharem em Londrina. Outra demanda, segundo ela, é uma creche para as crianças, o que possibilitaria a mais mães trabalharem. "Meu filho mais novo está com 26 anos e desde quando ele era bebê esperamos a creche", recordou.
O comerciante Rinaldo Alves Pinheiro, 50, nasceu na Warta e defende que a maior necessidade da localidade é uma escola estruturada para as crianças e adolescentes estudarem com conforto e qualidade. O atual prédio, de madeira, é dividido entre o estado e o município e já não comporta as demandas.
"Faço parte da diretoria da Associação de Pais e Mestres e já estudei nesta escola. Não mudou quase nada da época em que eu era criança", apontou ele, que também se ressente do fim das festas típicas na Warta. "Organizamos o almoço sertanejo, mas poderia ter mais eventos para atrair mais renda", acredita.
Pinheiro é dono de um restaurante e atende, principalmente, trabalhadores de agroindústrias e cooperativas da região. "O pessoal vem trabalhar nas propriedades rurais e acaba almoçando aqui. São meus principais clientes", diz.

IRERÊ
No terminal de ônibus de Irerê (zona sul), a aposentada Lourdes Carlos, 73, esperava a condução para ir até Londrina onde compraria fraldas descartáveis. Ela mora no distrito desde 1963 e não vê muitas mudanças na localidade. O cabeleireiro Daniel Fernandes Braga, 19, é muito mais jovem mas também aponta que o distrito tem muitas necessidades.
"Temos que ir para Paiquerê, Tamarana ou Londrina para resolver tudo. Aqui só tem escola até o quinto ano e os jovens precisam sair para fazer cursos ou ter oportunidades", avalia ele, que fez curso de cabeleireiro em Londrina por um ano e atualmente trabalha em Paiquerê. "Temos que pegar ônibus para qualquer coisa", descreve.
Ele lamenta o fim de projetos focados na infância e juventude, que eram ofertados e acabaram suspensos, o que deixa essa parcela da população sem oportunidades. "Gosto de morar no distrito, mas não é opção. Preferia morar em Londrina", afirma.
Irerê não tem farmácia ou posto de combustível. Um dos únicos comerciantes do distrito, Maurício Fernandes Martins da Silva, mora em Paiquerê mas viu uma oportunidade de negócio no local e decidiu abrir um mercadinho. Ele relata que a população prefere comprar em grandes redes de Londrina por causa do preço. "Vendo a preços competitivos para tentar atrair a clientela para cá", revela, destacando que o distrito é esquecido pelo poder público, apesar de ser estratégico para a mobilidade da população rural por causa do terminal. "Não temos nem capela mortuária para fazer velórios", diz.
A aposentada Maria Luzia Ferreira mudou com cinco filhos pequenos para Irerê aos 37 anos por acreditar que o distrito seria melhor para uma viúva com crianças. Ela se aposentou como servidora pública e, por anos, acumulou o trabalho de serviços gerais no posto de saúde com os ofícios de diarista e trabalhadora rural para complementar a renda. "Terminei o ensino médio já adulta, pois aqui é tudo muito difícil. Irerê é excelente para morar, mas falta emprego para o povo. Os políticos só aparecem aqui para pedir votos", acusa.
A preocupação da comerciante Fátima Correia é com a falta de escola. As crianças precisam se deslocar a Paiquerê a partir do sexto ano e, segundo ela, isso é motivo de preocupação para as famílias. "Eles pegam estrada todo dia. Além disso, se acontece algo, não estamos perto para acudir. Gosto de Irerê por ser um local tranquilo onde tenho muitos amigos, mas a estrutura deixa a desejar."
Falta de valorização do patrimônio local

Pioneiro do distrito de Maravilha (zona sul de Londrina), o comerciante Shuzo Makihara, 85, chegou ao distrito aos 14 anos com a missão de comprar um sítio e garantir o sustento da mãe, avós e irmãos após a morte do pai. "Meu avô não falava português, então tive que assumir a responsabilidade", relatou. O dono do sítio voltou atrás no negócio e Makihara, sem muitas perspectivas, aceitou a oferta de um fazendeiro para cuidar de cinco alqueires de terra. A casa dele foi a segunda construção da localidade e, até hoje, abriga o comerciante e a esposa. Os quatro filhos do casal também nasceram no local, mas mudaram para Londrina para estudar e acabaram se consolidando na zona urbana.
Com o tempo, a família se enveredou pelos transportes e pelo comércio, que mantém até hoje na rua principal do distrito. O mercadinho, porém, também sofre com a concorrência do comércio de Londrina. "Todo mundo vai para a cidade trabalhar e acaba comprando por lá", revela. O comércio do pioneiro é procurado na hora das emergências ou quando a clientela precisa do crédito fácil garantido pelos anos de vizinhança. "A maior clientela são sitiantes ou o pessoal que tem chácaras de lazer", diz.
A filha de Makihara, Rosângela, mora em Londrina mas vem diariamente ajudar o pai no trabalho. Ela aponta que faltam linhas de ônibus e manutenção na estrada. "Eu e meus irmãos já pensamos em levar meus pais para Londrina, mas eles não aceitam, são acostumados com a vida tranquila", diz ela, que lamenta a falta de valorização do patrimônio local. "Quando há alguma benfeitoria, logo alguém vandaliza", lamenta.
O produtor rural Paulo Ferreira de Moura morou em Maravilha a maior parte da vida e ainda tem propriedades na região. Em 2010, porém, mudou para Londrina para facilitar o acesso da filha aos estudos. "Não gosto de Londrina porque sempre vivi na fazenda. A cidade parece um presídio", compara.
Apesar da preferência, ele admite que a vida nos distritos foi dificultada pela mecanização da agricultura. "Não há muitos empregos e os poucos que tem pagam pouco. As pessoas acabam tendo que ir para a cidade. O distrito não cresce porque não há oportunidades", acredita.
Festas típicas fora do calendário oficial
As tradicionais festas típicas dos distritos, como a Festa da Leitoa na Warta, Festa do Milho em Paiquerê ou Festa da Uva em Guaravera, não estão no calendário turístico oficial da cidade. Por falta de incentivo, os eventos foram pouco a pouco deixando de ser realizados, o que desagrada os moradores. "São festas que precisam ser estimuladas porque atraem renda aos distritos", disse Roberto Alves de Lima Júnior, diretor do Ippul.
Outra percepção de Lima Junior é sobre o papel das escolas municipais. Apesar de dividirem espaço com as instituições estaduais, elas concentram mais funções que as escolas tradicionais da zona urbana, pois cumprem um papel de assistência social. "Talvez fosse o caso de mudar o perfil das escolas, agregando estes serviços ou pelo menos deslocando profissionais de áreas como serviço social e psicologia para lá", pontuou.
Apesar de dependerem de Londrina, os moradores da zona rural são identificados com a cultura do local onde moram e não têm interesse em se mudar. "Se apropriam e valorizam o patrimônio cultural. O Ippul tem que identificar a cultura da região e valorizar no plano diretor", defendeu.
SEGURANÇA
A tranquilidade tão associada à vida na zona rural esbarra na falta de segurança. Moradores de todas as localidades relataram ocorrência de assaltos e falta de policiamento feito pela Polícia Militar (PM). "Quem acaba cumprindo essa função é a Guarda Municipal. Todos os distritos possuem módulos policiais desativados", apontou.
ETAPAS
O plano diretor é realizado em quatro etapas: a primeira, já concluída, definiu a proposta metodológica para elaboração da lei. A segunda etapa, em fase de realização, consiste em diagnosticar as demandas da cidade, o que vem sendo feito por avaliação técnica e consulta à população. As informações coletadas serão usadas para elaborar um prognóstico sobre como deve ser a cidade, na terceira fase do trabalho. Por fim, a equipe elaborará a minuta do projeto de lei para mandar à Câmara Municipal de Londrina. (C.A.)
SERVIÇO
O Ippul lançou o questionário do Plano Diretor Digital, uma ferramenta que busca motivar a participação da população e ampliar a divulgação do Plano Diretor. O questionário pode ser acessado no link http://ippul.londrina.pr.gov.br/plano_diretor_digital


