ICL faz 'milagre' para enfrentar crise
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quinta-feira, 29 de abril de 1999
Lúcio Horta 
Audiência pública para discutir a situação dos hospitais da Zona Norte (HZN) e da Zona Sul (HZS), que ameaçam demitir e acabar com plantões diários. Uma novela interminável sobre a reforma do Hospital Universitário (HU), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), há anos à beira de um colapso. Campanha voluntária no rádio e na televisão para socorrer a Santa Casa, que tem dívidas acumuladas.
A crise que atingiu os hospitais de Londrina está longe de ter fim. Muitas instituições precisam fazer economia rigorosa para continuar atendendo o mesmo número de pacientes sem desviar a atenção da qualidade. Não tem milagre: quando o dinheiro falta, o resultado é redução no atendimento, mais filas nos prontos-socorros, possibilidade real de tragédia para famílias.
A maioria dos hospitais tem usado (e abusado) da criatividade para sobreviver. O Instituto de Câncer de Londrina é um exemplo. Fundado em 1965, é referência na região no tratamento de tumores. Somente no ano passado, realizou 242.224 procedimentos médicos, sendo que 199.463 deles foram em pacientes do SUS. A receita foi de R$ 7,095 milhões (R$ 5,1 milhões provenientes do Ministério da Saúde e o restante de convênios e particulares).
O problema são as despesas, maiores que a receita: exatamente R$ 7,983 milhões em 98. A diferença, de quase de R$ 900 mil, foi obtida graças a uma combinação que ia desde visitas insistentes aos órgãos públicos, pedindo liberação de novas verbas, até promoções junto à comunidade, como venda de feijoada.
Os hospitais estão financiando o SUS, avalia Nuno Ballalai, diretor-presidente do ICL. Ele observa que na Região Sul uma consulta - o procedimento médico mais simples - tem um custo médio de R$ 17,25 dentro de hospitais. O SUS paga somente R$ 2,55. E quem paga o resto?, questiona. Não existe nada de graça. Alguém está pagando.
Nuno Ballalai lembra que dos festejados R$ 19 bilhões do orçamento do Ministério da Saúde para este ano, apenas R$ 8,1 bilhões foram destinados para atendimento de pacientes do SUS. O restante foi para outros projetos, como campanhas de prevenção de doenças e manutenção administrativa.
Esse valor, ele destaca, é distribuído para Estados e municípios, independentemente do número de atendimentos realizados. Cada hospital tem um teto para atendimento de pacientes do SUS. Portanto, a receita é engessada, diz.
O presidente do ICL lembra que, fazendo uma média de 80% de atendimentos pelo SUS, é impossível equilibrar o orçamento deficitário, levando em conta somente os atendimentos particulares e de convênio. Ele observa que apenas um dos dois hospitais da União que tratam especificamente de tumores malignos, o Instituto Nacional do Câncer (INCa), tem uma receita de R$ 65,8 milhões prevista para este ano. Isso contra os R$ 5,1 milhões que foram repassados para o ICl. Eles sabem quanto custam um hospital, afirma.
Todos os hospitais de câncer filantrópicos do País - ou públicos não-governamentais, como Ballalai prefere chamar - passam pelas mesmas dificuldades financeiras. Pelo menos foi isso que ele percebeu numa reunião do setor realizada há 15 dias em São Paulo. A radiografia é idêntica para todos. Da Bahia ao Rio Grande do Sul, diz. Ballalai afirma: Os hospitais só não fecham porque a comunidade não deixa fechar.


