A Secretaria Estadual de Meio Ambiente divulgou neste mês que poderá repovoar os rios do Estado com o armado - espécie de peixe originária de um trecho do rio Paraná localizado abaixo de Guaíra. O anúncio gerou polêmica entre pesquisadores de peixes de água doce de universidades estaduais do Paraná, que criticaram o tom de ''entusiasmo'' da Secretaria.
Segundo o secretário da Sema, Rasca Rodrigues, a reprodução do armado (pterodoras granulosus) em cativeiro, alcançada pelo Centro de Pesquisa em Aquicultura Ambiental (CPAA) no início do ano, é um feito inédito mundialmente que vai possibilitar a reposição de peixes nos rios paranaenses. O secretário declarou que a Itaipu Binacional já demonstrou interesse na pesquisa para difundir o armado em lagos. Além disso, segundo ele, a espécie pode ser usada para repovoar as bacias I, II e III do rio Paraná.
Para o coodenador de pesquisas do Núcleo de Estudos Ictiológicos, Limnológicos e de Aquicultura da Universidade Estadual de Maringá (Nupélia/UEM), Ângelo Antônio Agostinho, a reprodução artificial, apesar de relevante em termos científicos, não significa que o armado é uma espécie adequada para se fazer repovoamento.
''Uma condição básica para repovoar é que seja uma espécie em vias de extinção ou super-explorada, o que não é o caso''. Agostinho acrescentou que a introdução de armado em rios onde ele não ocorre naturalmente, como a bacia do rio Paraná I, seria um crime ambiental.
O professor Horácio Ferreira Júnior - colega de departamento de Agostinho -, considerou a tese de repovoamento uma ''besteira''. ''O armado não é uma espécie nativa na maior parte dos nossos rios. Deveríamos pensar em espécies nativas para manter a variabilidade''.
Além disso, segundo Horácio, as tentativas de repovoamento no Paraná pecam pela falta de acompanhamento. ''Jogam lá e não voltam para ver se o nível foi mantido, se houve reprodução ou se a maioria morreu''. O professor acredita que a proliferação de armado ''é um ato sem significado ecológico e que não contribui para biodiversidade dos rios''.
A professora do departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sirlei Bennemann, considerou o anúncio da Sema uma atitude meramente política. ''Essa questão de repovoamento é dinheiro posto fora. Os políticos fazem aquele 'auê', pegam os sacos com os alevinos, que são super sensíveis, e jogam no rio. É a primeira coisa errada, tinha que ir aos poucos, aclimatando, misturando as águas. Quando joga, a maioria morre logo no começo''. Para Sirlei, o repovoamento dos rios carece de uma recuperação das condições iniciais - entre qualidade da água e manutenção da mata ciliar.
Outro grande problema para a reprodução de peixes em diversos rios é a operação das usinas hidrelétricas. ''Os reservatórios são como desertos de água'', disse.

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