Com o tempo, uma foto em preto e branco pode se tornar amarela, como a nossa vida. Uma dolorosa constatação que muitas pessoas não conseguem, não podem, não querem ou lutam para não enxergar, mas que o Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, mostra mais uma vez hoje, no último dia do Festival Internacional de Londrina (FILO), às 16 horas, num barracão da rua Maragogipe, com Paraíba (Área Central).
No espetáculo, o público é convidado a acompanhar o drama dos moradores do cortiço Nossa Senhora Bom Jesus de Braga, expulsos sob os aplausos da suposta urbanização, que no final do século XIX acabou com esse tipo de habitação. Só em São Paulo e no Rio de Janeiro cerca de 70% da população moravam em cortiços.
Um retrato amarelado daquela época, quando, se a doença visitava os moradores, não era o médico que batia na porta deles, mas a polícia.
Desavisado do processo de limpeza e higienização, o romantismo de brasileiros e dos imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, a lida dos operários, malandros, anarquistas, vendedores de jornal e lavadeiras, são resumidos numa única frase nos primeiros minutos da peça: ''...Se tem festa é uma pilha de roupa suja e se tem desgraça é uma pilha de roupa suja também''.
A montagem, que estreou em 2005, na Vila Maria Zélia, um antigo reduto operário do Belenzinho, traça as ruas para os personagens passarem em direção ao que acontece em qualquer cidade, onde a memória dos moradores desaparece com o abandono de edificações antigas. É o caso do barracão londrinense usado na peça, ele também uma lembrança esquecida dos tempos do café.
Entre o riso nervoso de descobrir que mais do que espectador, participará da encenação, a platéia itinerante pelo espaço abandonado conhece e identifica a vida de pessoas comuns.
''Nós não podemos discriminar roupa. Cada roupa tem uma história (...). Nenhuma pessoa cheira bem de tão perto'', afirma uma personagem, arranhando metáforas, surpreendendo o público com constatações duras.
Um espetáculo em que o público não passa impune às soluções cênicas do diretor Luiz Fernando Marques, colocando personagens em cima de caixa d'água, de carro velho, cruzando a rua para mais do que perguntar qual o lugar em que a gente vive, fazer a gente descobrir que vida a gente leva.

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