Quem conhece as corredeiras selvagens ou largas extensões do Tibagi não consegue evitar uma exclamação ao ver as humildes cabeceiras do rio em Palmeira, simpático município de 30,8 mil habitantes no sul do Paraná. Na Fazenda Querubim, Serra das Almas, o pequeno agricultor Ismael Ferreira Lopes, 71, reclama para sua propriedade o orgulho de abrigar as pequenas minas que se transformam no portentoso Tibagi.
''Tem outra nascente na propriedade vizinha, mas a 'nossa' é a maior'', repete seo Ismael a todos que batem à sua porta em busca da origem do rio. Entre os visitantes recebidos ao longo dos 60 anos em que o agricultor mora no local, ele enumera repórteres, pesquisadores, ambientalistas e ''alguma gente do governo''.
Embora a nascente de um dos mais importantes rios brasileiros pudesse ser atração em uma cidade pequena, ela não parece despertar curiosidade entre os moradores de Palmeira. Na área urbana, à exceção da prefeitura, e em parte da zona rural, ninguém soube informar à reportagem a localização da cabeceira, que fica a 8 km da BR-276 por meio de uma estrada de terra.
A exploração do rio pela família Lopes, diz seo Ismael, se restringe à água puxada por uma velha bomba para abastecer o casebre onde só mora com a esposa e a filha. ''O gado nem chega perto da nascente. Bebe água quando dá certo...'', conta, rindo. As 30 cabeças de gado da propriedade, junto com plantações de soja e milho, já insinuam a paisagem que tomará conta das margens do Tibagi até sua foz, em escala bem maior.
Com a sabedoria do homem simples, o pequeno agricultor expõe seu modo de ver as modificações da natureza e dá lição de como preservar o rio. ''As águas têm diminuído, há 20 anos chovia bem mais. A gente não tem lógica para dizer por que diminuiu, se foi obra dos homens ou de Deus. Da nossa parte, a gente não descampa em torno da nascente pra água não perder a força. Se ela acabar, a gente vai ter um trabalhão pra tirá-la do fundo da terra.'' (V.N.)

mockup