Por falta de leitos disponíveis na Unidade de Terapia Itensiva (UTI), o Hospital Universitário (HU) de Londrina suspendeu as cirurgias de redução de estômago, que vinham sendo realizadas há seis anos. A última foi realizada na sexta-feira passada e não há previsão de quando serão retomadas. Se o hospital não conseguir voltar ao ritmo normal de procedimentos dois por semana, em média corre o risco de perder o credenciamento junto ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Com a suspensão, os 64 pacientes cadastrados no Projeto de Tratamento de Obesidade Mórbida estão sem perspectivas de quando poderão fazer a tão esperada cirurgia. ''É uma situação muito difícil para nós, que no dia-a-dia enfrentamos vários problemas decorrentes do peso'', diz o técnico em refrigeração Valdir Stelzer, 50 anos e 220 quilos. Há cinco anos, ele não consegue mais sair de casa para trabalhar. ''Caminho no máximo 10 metros, mesmo assim utilizando uma cadeira como apoio.'' Além das limitações impostas pelo peso, Stelzer enfrenta problemas de circulação e pressão alta, comuns à maioria dos obesos.
O técnico, que hoje trabalha em casa gravando mensagens, integra um grupo de 22 pacientes que se mobilizou para tentar fazer com que as cirurgias sejam retomadas pelo HU. No final do mês passado, eles enviaram um abaixo-assinado ao promotor Paulo Tavares, da Promotoria de Defesa dos Direitos Constitucionais, onde relatam a situação e pedem providências. ''Sabemos que o promotor voltou de férias esta semana. Estamos na expectativa que ele faça alguma coisa por nós'', afirma Eliana Moretin Maziero, 37 anos, que redigiu o texto do documento. Eliana pesa 170 quilos e tem indicação cirúrgica desde 2001. ''Não podemos perder um serviço oferecido há vários anos em Londrina.''
O advogado que acompanha o grupo, Marcio Antonio Miazzo, informa que se não houver resposta da Promotoria, pretede entrar com mandado de segurança para garantir o direito adquirido. ''Os mostruários provam que eles já passaram por todas as etapas pré-operatórias e estão aptos ao procedimento. O único impecilho agora é a falta de vaga na UTI.'' A Folha procurou o promotor Paulo Tavares ontem à tarde, mas ele não foi localizado. Na próxima segunda-feira, o grupo vai se reunir com integrantes do Conselho Municipal de Saúde para discutir o assunto.
A cozinheira Maria das Dores de Oliveira Bernardo, 53 anos, operada na sexta-feira, considera um absurdo o que vem acontecendo no HU. ''Eu fui internada no dia 29 de junho, mas só pude ser operada no dia 22 de julho. Durante o tempo que fiquei lá, fui preparada quatro vezes para a cirurgia, com colocação de sonda e tudo mais, mas quando chegava a hora não tinha UTI disponível e os médicos eram obrigados a adiar. Emocionalmente isto é terrível.''
O médico Antonio Carlos Valezi, responsável pelo projeto, afirma que, oficialmente, o projeto não pode ser suspenso por causa do credenciamento junto ao SUS, mas que a equipe decidiu não agendar mais as cirurgias enquanto as condições normais do hospital não se restabelecerem. ''De um ano para cá as coisas ficaram muito difíceis no HU. Não faz sentido internar os pacientes e não poder operá-los, deixando-os naquela angústia'', afirma o médico.

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