HU faz 10 anos de luta contra a Aids
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 1997
Adriana De Cunto 
Londrina
Dorico da SilvaCuidadosMaria Inêz presta atendimento a portador da doença: setor de Moléstias Infecciosas já teve 20 pacientes internados na mesma épocaAmanhã é o Dia Mundial de Combate à Aids. A data marca tem um significado ainda mais especial para os londrinenses: há 10 anos, começava serviço de atendimento multiprofissional a pacientes com HIV/Aids do Hospital Universitário, órgão ligado à Universidade Estadual de Londrina.
O serviço do HU começou em setembro de 87, dois anos depois que o hospital recebeu o primeiro paciente com a doença. Em 86 foram mais três casos. No ano seguinte, foi criado um setor que reunisse profissionais de várias especialidades para receber os portadores que se multiplicavam. Em 1987, o hospital recebeu 12 pacientes.
A Autarquia Municipal de Saúde já registrou 514 casos de Aids em Londrina, a partir de 1985. Mas o HU já recebeu cerca de 900 pessoas com a doença, somando mais de 3.300 atendimentos ambulatoriais. O número é alto porque a instituição recebe também pacientes de outras cidades. Nestes 10 anos, as internações de pacientes com Aids chegaram a 684, sendo que 445 pessoas (65%) morreram. O hospital justifica o alto índice de óbitos lembrando que, muitas vezes, os pacientes se internam depois da manifestação das doenças que acompanham a Aids.
A Aids não é uma doença característica de grupos de risco, mas de pessoas com comportamento de risco
José Luis da Silveira Baldy, coordenador do serviço de HIV/Aids do Hospital Universitário
Dorico da Silva
A equipe do HU percebeu que não adiantava tratar os pacientes só com atendimento médico, já que a doença têm muitas consequências psicológicas e sociais. Aids costuma gerar preconceito, perda de emprego, dos amigos e de familiares.
O médico José Luis da Silveira Baldy é o coordenador do serviço no HU. Ele lembra que a organização da equipe antes da década de 90, quando o número de casos aumentou acentuadamente, foi muito importante para que os profissionais do hospital pudessem enfrentar a doença com segurança e informação.
Não só os soropositivos que recebem atendimento no HU. Os familiares também são assistidos para orientação de ordem social, física ou psíquica. A equipe é composta por profissionais das áreas médica (infectologistas), de enfermagem, bioquímica, serviço social, psicologia, fisioterapia e nutrição. Há a preocupação em contribuir para o aprimoramento profissional dos recursos humanos envolvidos com o tratamento e favorecer experiências interdisciplinares.
Baldy explica que ao se defrontar com o exame positivo, o portador do HIV vê escancarado um comportamento que até então era particular. A gente está acostumado a lidar com a perspectiva da morte. Mas os portadores do HIV passam a viver com a expectativa da morte. A primeira pergunta que eles fazem é: Quando vou morrer?
Hoje o quadro mudou, constata o médico, graças ao desenvolvimento dos medicamentos anti-retrovirais que compõem o famoso coquetel usado pelos portadores do vírus ou doentes de Aids. Na avaliação de Baldy, a utilização do coquetel foi um dos grandes avanços destes 10 anos do serviço do HU. Mudou o perfil dos portadores, que passaram a ter mais esperança de enfrentar o tratamento e perceber que é possível viver com Aids.
Baldy elogia a conduta do Conselho Municipal de Saúde, que trouxe para Londrina, em novembro de 96, o coquetel anti-Aids. O Conselho pagou os primeiros lotes dos medicamentos e fez de Londrina a segunda cidade do interior do Brasil a oferecer esse tipo de tratamento aos pacientes.
Logo depois, o Governo Federal passou a custear os remédios. Mas uma comissão interna do Ministério da Saúde determina critérios de uso do coquetel com base na contagem de linfócitos, da carga viral e da condição clínica do paciente. No HU de Londrina, 150 doentes recebem os medicamentos.
No Brasil, o coquetel é usado há pouco mais de um ano, enquanto nos centros mais avançados ele está à disposição há dois anos. Não dá para fazer uma projeção de tempo de vida do paciente que usa o coquetel. Isso depende de muitos fatores, diz o coordenador do serviço. Ele explica que é preciso levar em conta a condição clínica do paciente e até mesmo se o doente encara o tratamento com seriedade.
Outro avanço importante destes 10 anos, segundo Baldy, foi o aumento do número de leitos destinados ao tratamento da Aids no HU, além da criação deste serviço em outros hospitais da Cidade. Os membros da equipe multiprofissional lembram que no início o HU destinava apenas três leitos para pacientes com HIV/Aids. Mas depois as vagas foram ampliadas para 12 e os pacientes são atendidos em uma das enfermarias do setor de Moléstias Infecciosas.
A assistente social do hospital, Maria Tereza Pereira, comenta que se trata de um número insuficiente de leitos. A enfermeira Maria Inêz Almeida lembra que no setor de Moléstias Infecciosas já estiveram internados, em uma mesma época, 20 pacientes com Aids. Apesar da orientação da Secretaria Estadual de Saúde para que cada Regional de Saúde cuide de seus doentes com Aids, o HU recebe muitas pessoas de fora. Os doentes procuram assistência longe de casa, segundo os especialistas, para evitar preconceitos e represálias da sociedade.
A média de tempo de internação dos doentes com Aids é de 15 dias, comenta Baldy, um período bem maior que os pacientes com outras doenças infecciosas, como a meningite, por exemplo. Mas o atendimento do HU referente à Aids não se limita a internação hospitalar. Oito pessoas são atendidas por dia no ambulatório no sistema hospital-dia. Através deste método, eles permanecem no hospital apenas durante a medicação ou outros procedimentos necessários. Depois, voltam para o convívio com a família e para o trabalho.
Com a construção do hospital-dia para Aids no HU, previsto para começar no ano que vem, o número de pessoas atendidas diariamente deverá subir para entre 12 e 20, comenta a assistente social Maria Tereza Pereira. Vinculado ao serviço multiprofissional de Aids no HU, está também o programa de tratamento das crianças infectadas com o HIV, que é coordenado pela médica Jaqueline Capobiango e oferece o mesmo tipo de atendimento. Quarenta e oito crianças já foram tratadas, sendo que aproximadamente 50% morreram.
O projeto recebe crianças recém-nascidas. Maria Tereza Pereira explica que até os dois anos elas têm chance de terem revertido o diagnóstico de positivo para negativo. A criança nasce com os anticorpos da mãe. Mas o número de vírus HIV pode ser insuficiente para contaminá-la e o bebê tem chances de se livrar do vírus a partir da produção de seus próprios anticorpos, afirma.
Baldy lembra que as mães que descobrem que são soropositivas ainda no pré-natal, tomam o AZT durante a gravidez e não amamentam, têm grandes possibilidades de livrar os filhos da Aids. A mulher soropositiva que toma AZT na gestação tem risco de 8% de transmitir o vírus para o bebê. Mas o índice sobe para 35% no caso das mães que não tomam nenhum remédio.


