Lúcio Horta
De Londrina
A crise do atendimento no Hospital Universitário (HU) de Londrina atingiu ontem seu momento mais crítico. Nunca se viu tantas macas espalhadas pelos corredores e novos doentes chegavam a cada minuto. Até cadeiras eram utilizadas como camas improvisadas. O corre-corre de médicos, enfermeiros, atendentes, profissionais da limpeza, da cozinha, pacientes e acompanhantes estreitava ainda mais os corredores internos do prédio e dava a noção exata do caos.
‘‘Faço tratamento aqui desde 1995 e nunca vi este hospital tão cheio’’, assegurou Osvaldir de Liza, 58 anos. Ele é morador de Guaíra (158 km ao norte de Cascavel) e procurou o HU para tratar de problemas na bexiga, rins e próstata. Acabou ficando no corredor, deitado na maca. ‘‘Quando tem leito é melhor. A gente tem mais atenção, mais privacidade’’, completou.
O diretor-superintendente do hospital, Cláudio Camacho, disse que o problema da superlotação - uma realidade há muitos anos constante no HU - se agravou depois da decisão da juíza Neide Negrão, de Londrina, de ameaçar prender médicos do HU caso pacientes de pronto-socorro não fossem atendidos. Com isso, todos os pacientes, mesmo os menos graves, passaram a ser examinados pelos plantonistas do HU.
‘‘Agora todo mundo que chega é atendido’’, diz Camacho. A medida, segundo ele, acabou deixando ainda mais tumultuado o ambiente do hospital. Ontem de manhã, além dos 36 leitos de observação do PS, outros 31 pacientes estavam espalhados nos corredores. Para piorar, pelo menos dois pacientes de UTI permaneciam acomodados na enfermaria do pronto-socorro, respirando com ajuda de aparelhos e aguardando vaga na internação. ‘‘Ontem (anteontem) de manhã tínhamos cinco pedidos de transferência para cá, de hospitais secundários da cidade e da região, e não tínhamos como receber’’, lamenta Camacho.
‘‘É cansativo demais. Não consigo nem sentar que dói o quadril. Dói demais’’, disse Amélia Bortolozo, 81 anos, que há dois dias aguarda no corredor uma vaga na internação para passar por uma cirurgia cardíaca. Ele precisa trocar o aparelho de marcapasso. ‘‘Segunda-feira o médico disse que tinha que trocar rápido. Mas quando veio para internar tinha outro paciente mais grave e não deu. Chegaram a pedir desculpas. É duro pra todo mundo’’, disse Alcides Bortolozo, 70 anos, irmão de Amélia.
O improviso também tem sido constante. O plantonista Marcos Camargo informou que na quarta-feira da semana passada, por exemplo, quatro pacientes graves precisaram ser atendidos ao mesmo tempo na sala de emergência - que tecnicamente tem capacidade para um paciente de cada vez. Tinha casos de coma, enfarte e acidente cardiovascular. ‘‘E tem acontecido, nos últimos dias, de hospitais da região mandarem ainda mais pacientes para cá, mais do que antes’’, observa o médico.
Um outro problema é a espera. Depois da triagem médica, tem paciente menos grave aguardando até dez ou onze horas para receber atendimento. Isso já tem causado revolta em muita gente. ‘‘Temos que priorizar. E se ele esperou tanto tempo é porque não precisava mesmo estar num hospital terciário’’, afirmou Camacho. ‘‘A preocupação é que, em função da superlotação, a gente dê um atendimento inadequado’’, acrescenta o diretor-clínico Sylvio Villari.Ameaça de prisão de médicos, segundo direção do hospital, agravou situação no pronto-socorro, que está atendendo casos leves
Fotos Josoé de CarvalhoIMPROVISOAtendente examina doente no pronto-socorro: ontem pela manhã havia 31 pessoas espalhadas pelos corredores do hospitalAmélia Bortolozo, 81 anos, aguarda há dois dias vaga na internaçãoPaciente que necessita de UTI: hospital teme risco no atendimento

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