O Hospital do Câncer de Londrina vem registrando queda nas doações que costuma receber da comunidade externa nos últimos três meses. Dos 52 mil carnês cadastrados para contribuição, somente 33 mil vêm sendo pagos regulamente. Esta situação ocorre num momento em que o número de atendimentos vem crescendo exponencialmente, assim como a própria estrutura da instituição.

O hospital, um centro de alto complexidade de atendimento oncológico, é o único do Norte do Paraná e atende pacientes de mais de 200 municípios
O hospital, um centro de alto complexidade de atendimento oncológico, é o único do Norte do Paraná e atende pacientes de mais de 200 municípios | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

O hospital tem atualmente 42 mil pacientes em atendimento ativo. São pessoas vindas de 223 municípios. A cada R$ 1 de custo com elas, o SUS (Sistema Único de Saúde) repassa R$ 0,63 para custeio. O restante acaba se tornando deficit para a unidade, o que é coberto por meio da ajuda da população. Há 15 anos, por exemplo, os atendimentos eram de 1,2 mil, ou seja, crescimento de 3.400% em uma década e meia.

Segundo o gerente de Marketing da instituição, Fábio Maneiro, o teto do hospital junto ao SUS é de R$ 2,1 milhões. “Estamos atendendo acima do nosso limite e a maior parte dos pacientes é pelo Sistema Único de Saúde. Nos últimos meses estão entrando mil, dois mil doadores novos, entretanto, está saindo a mesma quantidade. A conta está apertada para fechar”, lamentou.

APELO

Por conta disso, o Hospital do Câncer, que está entre os dez melhores do País, reforça a solicitação para colaboração da comunidade, sejam novos colaboradores ou os que estão com o carnê em atraso. “Se cada família londrinense ‘adotar’ um paciente, por exemplo, colaborando com R$ 10, conseguiremos manter os atendimentos de hoje. Porém, se continuar assim poderemos ter complicações na quantidade de atendimentos, por isso, fazemos este apelo”, destacou.

O projeto do carnê vem sendo desenvolvido há vários anos e consiste na doação mensal, em montante de escolha do colaborador, a partir de R$ 10. A pessoa interessada recebe o documento na residência, entregue pelos Correios, e pode pagar por diversos meios, como casas lotéricas, bancos ou aplicativos bancários. “O colaborador pode entrar em contato conosco por meio do telefone. Uma simples ligação pode salvar vidas.” Não são cobrados juros se os meses atrasados forem quitados posteriormente.

Maneiro ainda chama atenção para o fato das doações diminuírem num período em que os atendimentos costumam aumentar, em razão de campanhas como “Outubro Rosa”, voltada para a conscientização do câncer de mama, e “Novembro Azul”, relacionada ao câncer na próstata. “A pessoa, mesmo quando vai na UBS (Unidade Básica de Saúde), pega a guia para fazer a mamografia no Hospital do Câncer”, explicou. “Aumenta em outubro e novembro, porém, estamos os 12 meses do ano abertos à comunidade”, acrescentou.

CUSTOSO

custo do tratamento de um paciente com câncer nos estágios um e dois, que são os iniciais, por exemplo, é em torno de R$ 15 mil. Já no nível quatro, que é o avançado, é de aproximadamente R$ 38 mil. Sem encontrar um motivo exato para as perdas de receitas com doações, o gerente de Marketing do Hospital do Câncer de Londrina elencou algumas possibilidades, como atual conjuntura econômica, necessidade de outras instituições que também pedem apoio e até a morte de doadores, que numa grande parcela são idosos.

“O Hospital do Câncer é um grande centro de alta complexidade de atendimento oncológico. É o único no Norte do Paraná e de todas as cidades que dependem desta instituição, que vem atendendo de maneira tão especial. Nosso maior legado são nossos pacientes e os familiares. Oferecemos alimentação, dentistas, psicólogos, fonoaudiológicos. O hospital está em Londrina, mas, é de todos que dele precisam. Temos que cuidar do que é nosso hoje”, elencou Maneiro.

Outra iniciativa do hospital são os cofrinhos que ficam em milhares de estabelecimentos. Ao todo, são 14 mil distribuídos em 62 cidades.

SERVIÇO - Quem quiser colaborar com o Hospital do Câncer de Londrina pode ligar para (43) 3343-3300 ou enviar mensagem por meio do aplicativo WhatsApp para (43) 99998-3300.

'MOMENTO DIFICULTOSO'

De acordo com Cibele Hencklain Blaauw, integrante da Associação Fórum das Entidades Filantrópicas de Londrina, é inviável as instituições sem fins lucrativos manterem seus serviços funcionando de forma plena apenas com recursos públicos. “A comunidade é fundamental para manutenção dos serviços. Isso é em 100% das instituições”, aponta Blaauw , que é também diretora da Associação Flávia Cristina.

Uma das formas de ajudar as organizações é através de valor destinado por meio do imposto de renda, entretanto, Blaauw adverte que esta questão é um problema em Londrina. Isso porque, relata, este tipo de doação vai para o Fundo Municipal da Criança e Adolescente. O Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, de 2014, determina a criação de um banco de projetos, em que o contribuinte seleciona qual destinação quer dar à doação. Entretanto, a cidade ainda não conta com isto.

“Isso inviabiliza muito. Nós, do Flávia Cristina, temos um projeto em que iríamos utilizar o dinheiro da doação para realizar a reabilitação física de pacientes pelo método chamado de pediasuit. Apresentamos o projeto, porém, a aprovação fica difícil devido a esta mudança na lei. Houve uma redução drástica na colaboração do imposto de renda. Este banco seria aberto para todas as instituições filantrópicas colocarem suas iniciativas”, detalha.

A Associação Flávia Crististina recebe montante do governo do Estado para o ensino e da Prefeitura de Londrina para os trabalhos em reabilitação em saúde. No caso da educação, por exemplo, são R$ 500 mensais para cada um dos 200 alunos para bancar alimentação, que no dia são quatro. “Isto é irrisório pelo que se oferece. Temos que buscar recursos próprios para complementar”, exemplifica. “Estamos numa região de vulnerabilidade social e houve maior número de solicitações em consultas, doações de alimentos. Estamos num momento dificultoso.”

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