Rio de Janeiro O resgate e assassinato de presos em hospitais do Rio levou as secretarias municipal e estadual de Saúde e a de Segurança Pública a mudar os procedimentos para atendimento a criminosos. Uma portaria conjunta obriga a identificação de baleados em menos de 24 horas e a transferência imediata passada a fase crítica do paciente.
Nem sempre foi assim. As mudanças ocorreram depois do resgate do traficante Márcio Greik dos Santos, então com 19 anos. Baleado, Greik chegou a ficar alguns dias na enfermaria coletiva, sem algemas. Demorou a ser identificado. Passou à enfermaria 407 e ficou sob a custódia de um policial militar. Na madrugada de 5 de abril de 2001, 20 homens armados de fuzis, com coletes da Polícia Civil, invadiram o pátio e dominaram quatro vigilantes, que foram espancados.
Entraram no prédio principal, dispararam tiros nos corredores e subiram à enfermaria, onde estava Márcio Greik. O policial militar que fazia a guarda de Greik voltava de um lanche e foi assassinado. Policiais que faziam ronda no bairro ouviram os disparos e correram ao hospital. Houve tiroteio e sete pessoas que aguardavam na fila para marcação de consulta foram baleadas.
''Nunca vou esquecer aquele dia. Foram momentos de pânico. Os pacientes que podiam se levantar corriam pelos corredores levando o próprio soro. Um residente arrastou um armário de ferro para trancar uma porta, e era tão pesado que depois de passado o susto ele não conseguia removê-lo. Um médico se trancou no banheiro e duas horas depois não acreditava que a situação já estava calma'', lembra a atendente X., que ainda trabalha no local. ''Trabalho com medo de nova invasão, de que tentem roubar o caixa eletrônico. Nunca mais tive paz.''
''É fato que não há resgate enquanto os criminosos correm risco de morte. Esse resgate é feito quando passa a fase crítica e o paciente não foi removido. Isso coloca em risco os médicos e os demais pacientes'', disse o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze. Ele diz que os resgates pararam de ocorrer, enquanto a resolução que ajudou a redigir foi cumprida. ''Quando há falha no cumprimento da resolução, os resgates ocorrem''. Foi assim no último dia 20 de abril.
Cinco homens armados invadiram o Hospital Estadual Albert Schweitzer, em Realengo, na zona oeste, e mataram com 10 tiros dois presos sob custódia na enfermaria do 7º andar. ''O alvo dos assassinos esperava uma cirurgia ortopédica eletiva (não emergencial). O outro foi morto por ser testemunha'', disse Darze. Em cinco anos, foi o terceiro caso de presos executados naquele hospital. Outra falha ocorreu em 22 de dezembro de 2003, lembra o médico.
Internado no Hospital Municipal Miguel Couto, o traficante Leandro Aparecido de Jesus Sabino foi resgatado do Setor de Politraumatizados, por 10 homens armados. ''Ele deveria ter sido transferido assim que saiu do risco'', defende.
De acordo com Darze, médicos, enfermeiros e funcionários de hospitais públicos vivem sob o estresse constante da violência. Além dos resgates e execuções, há casos em que traficantes obrigam que comparsas sejam atendidos. No fim do ano passado, médicos da emergência do Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, no Caju, fecharam o setor, devido as ameaças de traficantes que exigiam tratamento imediato para feridos à bala.
Os hospitais viraram alvo também de ladrões de caixas eletrônicos. Levantamento feito pelo sindicato em 42 hospitais mostra que 15 deles têm os equipamentos e seis foram alvo de criminosos. ''A Secretaria de Segurança propôs a retirada dos caixas. Mas o problema não está no equipamento, que é importante para quem fica de plantão por 24 horas. O problema é a falta de policiamento'', criticou.
A Agência Estado pediu uma entrevista à Secretaria de Segurança Pública. O indicado para falar pela Assessoria de Imprensa foi o subsecretário Operacional Paulo Souto. Na sexta-feira, ele passou o dia em reuniões e não atendeu às ligações.

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