Marcos NegriniCom as próprias mãosA demora do Governo em autorizar o cumprimento de ordens de reintegração de posse com uso de força policial levou os fazendeiros da região a contratar seguranças e agir. A Fazenda Saudade foi desocupada por cerca de 60 homens. Pertences dos sem-terra foram queimados. As frequentes invasões de terras no Noroeste do Estado e a morosidade no cumprimento das ordens de reintegração de posse levaram os fazendeiros a contratar seguranças que, muitas vezes, não são treinados para agir em situação de conflito. A retirada dos trabalhadores sem-terra que estavam acampados na Fazenda Saudade, em Santa Isabel do Ivaí, demonstra a intolerância dos fazendeiros com os invasores.
Os proprietários rurais afirmam que eles próprios fizeram a desocupação de forma pacífica, mas os sem-terra refutam e dizem que houve agressão. Os trabalhadores rurais também garantem que a retirada foi feita por pessoas treinadas.
Por causa da repercussão negativa do episódio que obrigou o governador Jaime Lerner (PFL) a garantir que todos os envolvidos na retirada dos sem-terra vão responder processo, a maioria dos fazendeiros da região evita falar sobre contratação de pessoal para fazer a segurança das propriedades. Eles chegaram a negar que contrataram seguranças num primeiro contato com a reportagem da Folha, mas acabaram admitindo que mais de 90% dos fazendeiros da região Noroeste contam com o serviço de pessoas orientadas para impedir novas invasões.
De acordo com um ruralista que pediu para não ser identificado, praticamente todos os fazendeiros que ainda não tiveram suas propriedades invadidas estão preparados para impedir a entrada dos sem-terra. Ele garantiu que as pessoas que prestam serviço de segurança nas propriedades pertencem a três grupos: são funcionários antigos e corajosos que aceitam fazer a vigilância da fazenda mesmo com a iminência de invasão; pessoas contratadas de empresas de segurança especializada localizadas principalmente em Paranavaí, Maringá e Londrina; ou desempregados que moram nas cidades vizinhas e aceitam fazer o serviço de vigilância, apesar de não apresentar qualificação para agir em situação de conflito.
Outro ruralista que também não quis ser identificado, prefere acreditar que o governo do Estado venha garantir a paz e a segurança no campo e passe a cumprir todas as reintegrações de posse. Enquanto isso efetivamente não acontece, o ruralista admitiu que a grande maioria dos fazendeiros da região Noroeste contratou pessoas para fazer a segurança das propriedades.
Ele se recusa a divulgar o custo para manter estes ‘‘funcionários’’, mas afirma que é elevado e que a maioria dos fazendeiros não tem condições de contratar estes serviços. ‘‘Diante a ameaça de perda do imóvel, todos os fazendeiros estão fazendo o que podem para investir no sistema de segurança da propriedade’’, disse o ruralista.
A presença de seguranças nas fazendas também é confirmada de forma indireta por um delegado da região. Ele compara a propriedade rural com bancos e diz que, assim como as agências bancárias que contam com sitema de segurança interna, as fazendas, que na opinião dele são como empresas, também estão sendo protegidas da mesma forma. Indagado sobre quantas fazendas da região estariam usando o sistema de segurança, o delegado respondeu: ‘‘Você conhece algum banco que não tenha vigilantes?’’.

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