Homens costureiros invadem as fábricas
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sábado, 19 de julho de 1997
Osmani Costa Londrina 
Milton DóriaVagas para elesTrabalhadores de indústria têxtil: história dá suas voltas e faz que os homens voltem à atividadeDurante séculos, o ofício de desenhar, cortar e costurar roupas para a venda em lojas foi quase exclusividade masculina no Brasil. A época dos renomados alfaiates durou até a primeira metade deste século, mas sucumbiu à grande importação de máquinas financiada pelo governo do presidente Juscelino Kubitscheck, no final da década de 50. Foi o reforço que faltava à industrialização definitiva deste setor da economia.
As médias e grandes indústrias de confecção de roupas se espalharam rapidamente pelas cidades brasileiras. Chegaram a Londrina e passaram a empregar milhares de mulheres, que encontraram nessas empresas a primeira oportunidade de trabalho fora de casa, de um emprego formal com carteira assinada. Durante décadas, as máquinas das fábricas de roupas foram quase totalmente operadas pela mão-de-obra feminina. Uma a uma, as antigas alfaiatarias foram falindo; poucas conseguiram resistir. Sob nossa cultura machista, nos últimos anos foi sendo criada a imagem de que costurar, fabricar roupas - assim como lavar e passar - é profissão de mulher.
Essa realidade começa a mudar em Londrina. Empurrados pelo desemprego nos setores da construção civil, comércio e metalurgia, cada vez mais homens encontram nas indústrias de confecções o trabalho e salário mensal procurados há muito tempo. Até três anos atrás, a mão-de-obra masculina só estava presente nos setores de almoxarifado, corte de tecido e expedição - que exigiam muita força física - e não passava de 5% das vagas das fábricas londrinenses.
Hoje, os homens já são cerca de 25% dos empregados e estão presentes em setores antes considerados exclusivos de mulheres, como os de modelagem, passadoria, costura e acabamentos. Nossa área de atuação encolheu e mudou bruscamente, após o Plano Real e a crise enfrentada pela indústria nacional na competição com os roupas importadas a preços muito baixos, notadamente os vindos da China e outros países asiáticos, afirma a presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário de Londrina e Região, Leila Aparecida Zacarias.
Até o início de 1995, o setor empregava cerca de 12 mil pessoas. Hoje, emprega aproximadamente 4 mil. A quebradeira das fábricas foi motivada, em todo o País, pela queda no consumo - consequência do desemprego e do arrocho salarial -, e pela liberação da importação das roupas baratíssimas vindas da Ásia, comenta Leila Zacarias. Além disso, o Plano Real trouxe também dificuldades nos financiamentos, aumento nas taxas dos juros bancários e diminuição nos prazos para pagamento. Foi demais para a capacidade de sobrevivência das indústrias brasileiras, que já não vinham muito bem das pernas.
Na opinião de outra diretora do sindicato, Vilma Gilfrida, a entrada da mão-de-obra masculina no setor tem tudo a ver com a crise e o desemprego. As mulheres foram demitidas em massa das fábricas de roupas, nos anos de 95 e 96. No mesmo período, os homens perderam seus empregos na construção civil, no comércio, na metalurgia e outras indústrias. Quando o setor de vestuário começou a recontratar - pela abertura de novas fábricas ou para a reposição de demitidas -, os patrões passaram a preferir os homens, até por uma questão machista.
Segundo ela, as empresas alegam que as mulheres faltam mais ao serviço por causa de menstruação, saúde dos filhos - são as mães que levam as crianças ao médico -, gravidez e questões psicológicas. Isso é muito ruim, porque a substituição pelos homens pode estar ocorrendo para que as empresas deixem de cumprir com direitos trabalhistas que são conquistas históricas das mulheres, como por exemplo a licença-maternidade, ressalta Vilma Gilfrida.
As sindicalistas admitem, no entanto, que os homens têm ocupado com competência as novas vagas que surgem. Eles trabalham muito bem, são bons em todos os setores da confecção. Em alguns setores, até mesmo nas máquinas de costura, a qualidade do trabalho masculino tem superado a feminina, diz Leila Zacarias. E os dois sexos têm convivido pacificamente, com companheirismo no ambiente de trabalho. A chegada dos homens não causou nenhum problemas às mulheres nas fábricas. Pelo contrário, serviu de estímulo e ajudou a aumentar a produtividade das empresas, algumas em até 40%.
Sidney José Gonçalves, 28 anos, casado, é um dos cerca de mil homens contratados pelas fábricas de roupas de Londrina nos últimos dois anos. Antes de ser admitido para trabalhar no setor de corte de tecidos de uma grande indústria, ele esteve desempregado por cinco meses. Para mim, foi um grande alívio encontrar esse emprego. Não tive problemas no serviço e me adaptei bem à minha função, até porque os colegas ajudaram bastante. Nunca fui discriminado, por amigos ou familiares, por estar trabalhando em uma fábrica de roupas.
Silvano dos Santos Ilário, 21 anos, casado, opera uma máquina de costura e acabamentos há pouco mais de dois anos. Antes, ele trabalhava em uma usina de açúcar e álcool. A rotina do trabalho aqui é bem diferente, mas aprendi rápido e estou satisfeito com o trabalho. Sou o primeiro costureiro da minha família e tenho muito orgulho disso, garante Silvano, lembrando que também não sofreu discriminação social pela nova profissão. Os pisos salariais da categoria, para uma jornada de 44 horas de trabalho semanais, são R$ 152,10 - para auxiliares - e R$ 175,50, para costureiras e operadores. Dos dois sexos.


