Um passeio pela Área Central de Londrina ainda é uma viagem pela história. Hoje, ao lado de prédios modernos, estão construções antigas que fazem parte da memória da jovem cidade de 70 anos. Algumas resistem ao tempo, como casas de madeira nas vilas Casoni, Nova e Brasil, entre outras localidades. Outras são importantes porque abrigam instituições, como a Biblioteca Pública.
Pouca gente, porém, se dá conta da importância dos trabalhadores anônimos, que suaram para erguer construções que hoje fazem parte da paisagem e da história londrinenses. Grande parte destes pioneiros é formada por imigrantes de diversos países, de italianos a japoneses, de ingleses a alemães.
Um nome desconhecido, mas que poderia ser famoso pelas obras construídas no Centro e na Zona Rural de Londrina, é o carpinteiro e mestre-de-obras Feodor Talizin, de 94 anos. Nascido na Rússia, ele está no Brasil desde 1912. Na região de Londrina, a família chegou 17 anos depois.
Então um jovem de 17 anos, Talizin, chamado pelos brasileiros de Teodoro, mudou-se com a família para Jatahy, hoje Jataizinho. Após muito trabalho na roça, ele encontrou oportunidade de trabalho na construção em Londrina. Mas os dias não eram fáceis. De alguma forma, antecipou o conceito de cidade dormitório.
Trabalhava de segunda a sexta-feira na localidade chamada na época de Três Bocas e voltava para a casa dos pais nos fins de semana. A diferença é que fazia o trajeto de 21 quilômetros a pé.
Os primeiros dois ranchos em lotes comercializados pela Companhia de Terras foram construídos numa área de dez alqueires de mato, que Feodor Talizin ajudou a derrubar. Também abriu um espaço para servir de ''estacionamento'' para os cavalos dos compradores de terras. ''A gente trabalhava para cortar os lotes da companhia. Às vezes, dava medo de onça na mata onde a gente ia para marcar os lotes'', rememora.
Como todo bom pioneiro de Londrina, teve contato com ícones da história da cidade. Com Celso Garcia Cid, empurrou por várias vezes a ''Catita'', primeiro ônibus da empresa de transportes, quando atolava nas estradas da região.
Por seis anos e meio trabalhou na Companhia de Energia. Também foi carpinteiro autônomo. Obra era o que não faltava na Londrina de meados do século passado. Construiu as coberturas do atual prédio da Biblioteca Pública, que abrigou o Fórum, e da Igreja Metodista, na Rio de Janeiro, perto do Bosque.
Depois de muito praticar o ofício passou a ser mestre-de-obras. Cuidou da construção das barragens da Usina Três Bocas, na Zona Rural, e do Ribeirão Cambezinho, que fica onde hoje é o Parque Arthur Thomas (Zona Sul). Depois do engenheiro, ele era o responsável pelas obras.
Também a exemplo da maioria dos pioneiros, Feodor Talizin recebe hoje o título de Cidadão Honorário de Londrina. O título será entregue hoje, às 18 horas, na Câmara Municipal. Mesmo com dificuldades de locomoção, deve comparecer à solenidade. Em casa, usa um andador para ir de um lugar a outro. Na peça, há um suporte onde carrega a Bíblia Sagrada.
Ele conta que leu o Novo Testamento ''uma cem vezes.'' Isso antes de um problema de visão impedir de manter o hábito da leitura. O filho Paulo, médico nascido e formado na cidade, explica que, para o pai, o mais importante é o reconhecimento como um seguidor dos preceitos de Deus. ''Ele é evangélico. E por isso acha que é importante ser reconhecido como quem viveu e trabalhou bastante e quer ser reconhecido como cidadão do céu.'' Feodor Talizin é viúvo. A mulher Tatiana morreu em 2002. Hoje, ele vive com o filho, a nora e as netas Thalita, 11, e Paula, 9, na casa na Rua Duque de Caxias, onde a família sempre viveu.

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