Nova forma de ensinar pode estimular as habilidades do educando
Milton DóriaCelso Antunes: repensar o conteúdo sem mudar as disciplinasNascido em São Paulo em 1937, o educador Celso Antunes entrou numa sala de aula como professor pela primeira vez em 1958. São 41 anos trabalhando em todos os graus de ensino e em escolas dos mais diversos níveis. Sempre preocupado com o processo de construção do conhecimento – levando o aluno a pensar através de uma forma alegre –, dedicou-se desde o início de sua carreira à pesquisa de jogos operatórios de estímulo às habilidades e ao processo de construção do saber. Depois de 30 anos dedicados a trabalhar pela formação de consciências críticas, tomou conhecimento das pesquisas de Howard Gardner e outros sobre Inteligências Múltiplas, desenvolvida através do Projeto Zero, na Universidade Harvard. Nasceu aí sua grande paixão, que vinha ao encontro do trabalho que já realizava. Hoje, todo seu trabalho é voltado para esta mentalidade de educação, que ele ressalta não ser uma metodologia de ensino, mas sim, ‘‘um novo olhar, uma nova forma de pensar a educação’’.
Celso Antunes é coordenador geral de Ensino de Graduação das Faculdades Sant’Anna, de São Paulo, professor da Universidade Sênior da Terceira Idade e professor convidado de inúmeros cursos de pós-graduação. Já publicou mais de 170 livros, alguns traduzidos, sendo oito sobre inteligências múltiplas. Recentemente ele esteve em Londrina participando da 1ª Jornada Paranaense de Educação, promovida e organizada pela Futuro Congressos e Eventos, de Curitiba, quando concedeu entrevista à Folha.
Folha – Quando o homem começa a entender que temos várias inteligências?
Celso Antunes – No final da década de 70 com o avanço tecnológico, passa a ser possível estudar o cérebro humano de uma pessoa viva, agindo. Com isso a concepção de que o ser humano tinha uma única inteligência é substituída pela certeza de que o homem tem muitas inteligências e de que todas podem ser estimuladas.
Folha – Quantas inteligências o homem possui?
Antunes – Howard Gardner e uma grande equipe da Universidade de Harvard têm a convicção de que o ser humano é dotado de inteligências múltiplas que incluem oito dimensões: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, cinestésico-corporal, naturalista, intrapessoal e interpessoal. A esse elenco, o professor Nílson José Machado, doutor em educação pela Universidade de São Paulo, inclui a competência pictórica. Esta se manifesta em qualquer criança através de seus desenhos ou outros signos pictóricos.
Folha – Existe uma comprovação científica sobre a existência destas nove inteligências?
Antunes – O estudo do cérebro vivo é uma grande prova da existência de inteligências múltiplas. Outra comprovação é o fato de pessoas que sofrem um AVC, por exemplo, podem ter apenas algumas habilidades lesionadas e outras permanecem intactas. Se o ser humano tivesse apenas uma inteligência ele ficaria totalmente comprometido.
Folha – Estimular estas inteligências implica em tornar as aulas mais interessantes para os alunos? Em fazê-los redescobrir o prazer em aprender?
Antunes – Sim. Uma pessoa pode ter uma sensibilidade excepcional para a música, por exemplo, e não para matemática. Sem espaço para estimular a sua forma de expressão as aulas tornam-se chatas para ela. Hoje as escolas brasileiras valorizam apenas o escrever e o calcular. Há pouco tempo, por exemplo, não se pensava que era possível a escola ensinar a enxergar melhor, a ouvir melhor, nem se sabia da importância de se estimular os sentidos. Hoje sabemos que os sentidos são áreas cerebrais que atuam de forma independente.
Folha – E para isso é preciso mudar a grade curricular?
Antunes – Eu diria que é preciso repensar o conteúdo, não precisa mudar as disciplinas. A escola não responde às perguntas primordiais que todo indivíduo faz durante a sua vida independente de seu nível cultural: Porque eu vivo? Porque eu morro? Porque sinto frio? E muitas outras. É preciso transformar a escola em um centro de respostas para estas perguntas básicas sobre a vida.
Folha – E a metodologia das aulas? Precisaria ser mudada?
Antunes – Acredito que deve-se ter aulas mais dinâmicas em paralelo às aulas expositivas. Por exemplo, ao ensinar matemática para os alunos, poderia se fazer um passeio pela rua prestando atenção nos números das casas. Se estamos diante do número 9, por exemplo, e a rua tem 200 metros, qual o número da casa no final da rua? É claro que o aluno pode chutar, mas com o tempo começa a raciocinar para obter o resultado. Neste exercício simples o professor esta levando o aluno a construir a noção espacial (inteligência espacial) ao mesmo tempo que leva a um racicínio lógico-matemático.
Folha – Hoje fala-se muito em inteligência emocional. Qual das inteligências múltiplas se refere ao desenvolvimento emocional do ser humano?
Antunes – São as inteligências pessoais: intrapessoal, que corresponde ao autoconhecimento, ao saber administrar suas emoções, e a interpessoal, que diz respeito à forma como o indivíduo se relaciona com as outras pessoas.
Folha – E é possível estimular estas inteligências na sala de aula?
Antunes – Sim, inclusive tenho projeto de implantação da alfabetização emocional nas escolas. É um absurdo o professor ensinar biologia ao aluno e não ensiná-lo a se conhecer. É um absurdo ensinar física ao aluno e não ensiná-lo a se relacionar com as outras pessoas. É um novo conceito de qualidade de vida. Dar ao aluno uma dimensão de vida mais ampla.
Folha – O senhor acredita que esta nova forma de pensar a educação ainda leve muitas décadas para ser totalmente aceita nas escolas brasileiras?
Antunes – Acredito que mais uma década e as escolas já estarão se voltando mais intensamente para o indivíduo inteiro e não fragmentado. Os professores estão despertando muito rapidamente para esta necessidade.

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