Homem pedala 650 km para cumprir promessa de amigo
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terça-feira, 06 de março de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Siqueira Campos - ''As atitudes que me marcaram: persistência e vontade de vencer.'' Esta foi a mensagem que o servente de pedreiro Marcio Messias da Silva, 36 anos, quis passar a todos depois de viver uma experiência única na semana passada. Ele cumpriu a promessa de um amigo e viajou 650 quilômetros de bicicleta de Siqueira Campos (90 km ao sul de Jacarezinho) até Aparecida do Norte, no interior de São Paulo.
Marcio nem conhecia o vendedor de peixes Claiton Henrique de Oliveira, 54 anos, quando foi convidado por amigos a acompanhá-lo, de bicicleta, até Aparecida, para o cumprimento de uma promessa. ''Ele sempre sofreu muito com a diabetes e prometeu à Nossa Senhora que se melhorasse iria para Aparecida de bicicleta, assistiria uma missa e voltaria para casa de ônibus'', contou. ''Como morei um tempo em São Paulo e conhecia o caminho, decidi ensinar o caminho a ele'', completou.
Com dinheiro arrecadado pela organização não-governamental Liberdade de Pensamento e Ação pela Cidadania (LPAC), de Siqueira Campos, e doações dos frequentadores do Bar do Mané Sabino - ''o mais antigo da cidade'', segundo Silva -, a dupla deixou Siqueira Campos no último dia 23 de fevereiro, às 7 horas.
Depois de rodar 120 quilômetros, Claiton passou mal e precisou ser internado num hospital de Taquarituba, no Estado de São Paulo. ''Ele me disse para voltar para casa, mas a minha fé em Nossa Senhora me fez seguir viagem e cumprir a promessa por ele'', recordou Silva. Oliveira passou uma noite no hospital e no dia seguinte seguiu para Aparecida, de ônibus.
Durante uma parada em um posto de gasolina, Silva chegou a ver o amigo seguindo viagem no ônibus e acenou para ele. ''Pedi a Nossa Senhora que guiasse meus passos'', confessou servente de pedreiro.
Em seu itinerário, Silva conheceu Itaí, Paranapanema, Angatuba, Itapetininga, Sorocaba e Taubaté até chegar a Aparecida do Norte. O momento mais perigoso foi enfrentar a Marginal Tietê, na grande São Paulo. ''Como morei na cidade, conhecia uns atalhos e consegui chegar à Rodovia Ayrton Senna sem maiores problemas. De lá, peguei a Carlos Pinto que me levou à Nova Dutra, que dá acesso a Aparecida.''
Em Sorocaba, recordou Silva, ele aprendeu a dar valor aos andarilhos. ''Nunca mais esquecerei Jorge e Rodrigo. Foram eles que me deram pão e abrigo quando mais precisei'', disse. Ele relembrou que quando chegou à cidade, já sem dinheiro, contou com a ajuda destes moradores de rua, pois os donos de postos de gasolina e padarias da cidade expulsaram-no dos estabelecimentos, pensando que ele era um mendigo.
Na mala, ele levava uma rede, uma coberta, algumas trocas de roupa e água. A poeira da estrada o deixava bastante sujo, ''apesar de sempre parar para tomar banho nos postos''. À noite, estendia a rede para dormir, ''em árvores ou no chão mesmo'', afirmou.
''Naquele noite, em Sorocaba, fiquei com medo quando os andarilhos me convidaram para ir até o mocó onde eles moravam, mas resolvi arriscar e deu tudo certo. Até dividimos a rede e a coberta'', lembrou Silva.
De volta à estrada, já chegando em Aparecida, o servente de pedreiro foi novamente confundido com um mendigo. Dessa vez, por um funcionário de uma churrascaria. ''Parei para pedir um prato de comida e me senti humilhado porque o garçom falou que o chefe dele preferia dar os restos aos porcos do que para mim'', lamentou. ''Foi aí que aprendi a respeitar os moradores de rua.''
Silva chegou a Aparecida do Norte seis dias depois de iniciar a peregrinação, no dia 1 de março, às 16 horas. ''Lá, me juntei à romaria de Siqueira Campos. Eles me pagaram almoço e uma noite num hotel, depois retornei com eles para casa, de ônibus.''
Nascido em Cornélio Procópio, Silva mudou-se para Siqueira Campos há apenas seis anos. Casado, pai de três filhos, resolveu ajudar o ''conhecido'', ''só porque tinha muita fé em Nossa Senhora''. E foi recompensado pelo novo amigo. ''Ele me agradeceu dizendo que nem um filho faz isso por um pai.''


