Homem dilacerado desafia a medicina
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 1997
Paulo San Martin Campinas, Especial para a Folha 
Cleber RibeiroArrepiosEncarnación Zapata: calafrio por todo o corpo quando viu pela primeira vez as fotos do cadáver mutilado Uma história de terror, ocorrida há quase dez anos às margens da represa do Guarapiranga, na Grande São Paulo, promete mudar radicalmente o curso das discussões em torno do fenômeno chupa-cabra no Brasil. Para os que acreditam na sua existência, o caso é um forte argumento para reforçar ainda mais a crença. Para os que duvidam, ficará a inquietante questão: se não foi o chupa-cabra, quem ou que animal poderia ter provocado tantas dilacerações sem comparação na história da medicina?
Em outubro de 1988, em uma das margens de Guarapiranga, o corpo de um homem foi encontrado com mutilações que a medicina é incapaz de explicar. Suas vísceras haviam sido retiradas por uma perfuração de apenas 3 centímetros de diâmetro, feita na altura do umbigo; a região do lábio e grande parte da pele do maxilar inferior, bem como a língua e o esôfago haviam sido extraídos com precisão cirúrgica. Foram removidos também o ânus, bolsa escotral e reto da vítima. Os músculos do braço foram retirados por um pequeno orifício de 2 centímetros, feito simetricamente na parte superior dos membros. E a pele estava intacta. Não há técnica conhecida capaz de explicar isso, diria o legista.
O mistério cerca a história desde o começo. Os policiais que atenderam a ocorrência e que chamaram o Corpo de Bombeiros para remover o cadáver do local atribuíram as mutilações à ação de urubus. Como se veria depois, nem urubus nem outros animais chegaram a tocar no cadáver. O corpo estava irreconhecível. As primeiras investigações policiais não conseguiram indentificá-lo. Foi tratado como indigente e talvez tudo acabasse por aí se, ao fazer o exame necroscópico, o médico legista não tivesse ficado aterrorizado. Ele chamou outros colegas para tentar explicar o que tinha à sua frente.
O médico já havia analisado as roupas do cadáver e não encontrara uma única gota de sangue. Nas plantas dos pés descobriu perfurações milimétricas, logo abaixo dos dedos médios. Atribuiu-se, a princípio, a marcas causadas por descargas elétricas. Um exame apurado descartou esta hipótese. Um indivíduo vitimado pela eletricidade de um raio apresenta características muito peculiares. Nenhuma delas estava registrada naquele corpo. Depois, o médico descobriu que os furos nas solas dos pés atingiam com precisão algumas veias e artérias importantes. Pareciam ter sido feitas por um instrumento desconhecido para drenar o sangue da vítima.
Os médicos que acudiram à perplexidade do legista imaginaram, num primeiro momento, tratar-se de um ritual macabro feito com ajuda de especialistas nas áreas médicas. Exames mais apurados descartaram completamente esta hipótese. Algumas mutilações não poderiam ter sido feitas por nenhum instrumento ou técnica médica conhecida pela ciência atual. As glândulas submandibulares haviam sido extraídas através de uma pequena perfuração de poucos milímetros. Os tecidos que a cercavam se mantinham intactos.
Mas o que mais impressionara os médicos foi a extração dos músculos dos braços. Eles haviam sido arrancados através de perfurações com dois centímetros de diâmetro, feitas na altura da inserção superior do bíceps. Foi como se alguém tivesse pego um aspirador e arrancado todos os órgãos e músculos de uma só vez. Mas, para isso, seria necessário uma máquina de pelo menos 200 HPs. Imagine que a musculatura foi arrancada separada da pele. E como imaginar que, já que a pele é aderente à musculatura, alguém pudesse arrancar a musculatura e deixado a pele intacta?, perguntaria o legista.
O médico descartava qualquer possibilidade de que o corpo tivesse sido vitimado por predadores naturais, vermes ou bactérias. Não conheço nenhum tipo de predador que faça este tipo de orifícios simétricos e anatomicamente localizados. Os predadores penetram por orifícios naturais mas não os produzem para penetrar no corpo. Além do mais, e mesmo que todo o interior do corpo se mantivesse intacto, eu diria que, pela natureza das incisões, elas foram produzidas por alguém que sabia muito bem o que fazia, afirmou.
Exames mais acurados feitos posteriormente no laboratório de histologia do Instituto Médico Legal demonstrariam que o corpo foi manipulado ainda enquanto vivia, como afirmou o médico.
Apesar de todas estas dúvidas, o caso jamais foi investigado a fundo pela polícia. O mistério ainda cerca a história. O processo sumiu dos arquivos da Justiça e, durante todos estes anos, foi mantido longe dos veículos de comunicação e do grande público. Qualquer referência a ele teria desaparecido completamente se não fosse a insistência da professora Encarnación Zapata Garcia, uma espanhola naturalizada brasileira e radicada em São Paulo. Encarnación começou a reconstituir a história em 92 e só conseguiu juntar as peças do quebra-cabeças depois de dois anos de investigações e graças a ajuda do então promotor de Justiça José Roberto Cuenca.


