O sentimento de piedade é o primeiro que parece vir à mente quando se entra numa casinha de madeira da Rua Belo Horizonte, Área Central de Londrina. Não pela simplicidade contrastante com os prédios da vizinhança, novos, imponentes em suas cercas elétricas, mas pela condição de quem está dentro dela, alojado há muitos anos dentro de um minúsculo quarto. Quarto que, por sinal, faz também as vezes de banheiro, refeitório e sala de visita, TV e leitura.
Não são necessários nem cinco minutos de conversa, porém, para perceber que piedade não é, em definitivo, o que se sente de Sebastião Christino da Silva, de 69 anos. Vítima de febre reumática e, pelo que conta, de uma sucessão de hipóteses e erros médicos, ele vive deitado em uma cama há nada menos que 50 anos, desde que o que parecia um simples resfriado, quando criança, evoluiu e fez com que hoje ele dependesse da irmã, a decoradora Maria Cristina do Carmo, 65, para os afazeres mais simples. Naturais de Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro), eles chegaram a Londrina com a família nos idos de 1947.
A rigidez do corpo obtida após sucessivas crises de dor, que também lhe atrofiaram os músculos , contudo, é apenas superficial. Na conversa, as lamentações que seriam de se esperar de alguém privado de uma vida dita normal são substituídas por palavras de incentivo ao próximo, dotadas de uma dose encorajadora de esperança na humanidade. Ou, como ele prefere chamar, de fé o que, garante, não o desanimou quando veio o diagnóstico definitivo em plena juventude.
''Lembro que em 1952 a cortisona era um remédio novo. Usaram-na comigo, melhorou um tempo, mas depois já não fazia mais efeito'', diz, apontando que em diversas ocasiões se sentia ''cobaia, nas farmácias, dos que aprendiam a aplicar injeções''. O 'medicamento' para diminuir as dores e para suprir a falta de fisioterapeutas os quais, até hoje, ele nunca procurou veio mesmo é na religiosidade. ''Vivo Deus em todo instante da minha vida. Acho até que Ele me dá mais do que eu mereço. Só de estar vivo e não ser uma pedra ou um animal irracional já vale para ter esperança'', ensina.
Esperança também é palavra corrente nos lábios da irmã. ''Por piores que sejam as dificuldades, a vida é uma dádiva que precisa ser enaltecida. Temos que enfrentar os problemas, pois sempre teremos força para isso'', recomenda.
Mas se os remédios seu Sebastião garante que não os toma mais apesar da atrofia, jura que não sente mais dores , ele cita que outros elementos têm sido fundamentais na manutenção de seu bom humor e otimismo. ''Leio muito para passar o tempo. Leio de tudo, pois é como se estivesse vivendo as aventuras que não poderia jamais viver'', comenta, ilustrando antes a justificativa do hábito com um de seus autores preferidos, o gaúcho Mário Quintana: ''O pior analfabeto é aquele que sabe ler, e não lê'', reflete.
Palmeirense inveterado, ele assegura que o futebol ainda não é seu passatempo preferido. ''Jesus disse que quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro. Eu tenho muitos tesouros'', orgulha-se, no que é apoiado por dona Maria Cristina. Ano passado, ela teve uma surpresa quando voltou de uma complicada cirurgia no coração: ''O quartinho dele tinha gente nova o tempo todo, e ele estava muito feliz. Por isso acredito que solidariedade ainda existe, sim.''
E seu Sebastião sentencia, com toda a sabedoria adquirida: ''Se nós nos enclausurarmos dentro de nós mesmos, perdemos a batalha''.

mockup