‘‘Revista aquele negão ali que ele está com um pacote e não pagou’’, alertou uma funcionária das Lojas Americanas do Centro, a um segurança, que vigiava a saída da loja pelo Calçadão de Londrina. O representante comercial Vantuir Ventura, 45 anos, conta que nunca passou por uma situação tão constrangedora. ‘‘O segurança me parou, arrancou a sacola da minha mão e colocou os objetos em cima do balcão da lanchonete, examinando o conteúdo da sacola. As pessoas foram parando , se aglomerando para ver o que estava acontecendo. Foi um vexame’’, diz.
Segundo ele, até hoje colegas ligam para sua casa perguntando o que aconteceu. ‘‘Sou bastante conhecido e acabei ficando em uma situação delicada’’, comenta. Na sexta-feira, acompanhado do advogado Tito Valle, ele registrou queixa crime na 10ª Subdivisão Policial contra a empresa e os funcionários por ‘‘discriminação racial’’. O advogado explica que o crime, previsto pela lei federal 9459 de 97, pode resultar em uma pena de um a três anos de detenção e multa. Ventura vai ainda entrar com uma ação de danos morais contra a empresa.
O incidente aconteceu na segunda-feira de manhã, por volta das 10h30. Ventura foi à Caapsml onde comprou alguns produtos e depois aproveitou para dar uma passada pelas Lojas Americanas. ‘‘Fiquei irritado com a falta de respeito. Se eles tinham alguma dúvida deveriam ter me abordado com educação, sem me expor ao vexame’’, reclama. O tratamento só começou a melhorar, diz, depois que o segurança verificou que ele não tinha roubado nada.
Ventura diz que foi convidado a ir à sala da supervisora Sônia para tomar um café ou uma água. ‘‘Fiz questão que ela conferisse novamente a sacola. A supervisora disse que eu estava nervoso e estava mesmo. Quem não ficaria sendo humilhado daquela forma?’’, comenta. Depois, acrescenta, a supervisora ainda o convidou a continuar comprando na loja dizendo que seria sempre bem-vindo.
O representante comercial tem certeza de que o motivo que o colocou sob ‘‘suspeita’’ foi o fato dele ser negro. ‘‘Me senti discriminado’’, enfatiza lembrando que a funcionária usou o termo ‘‘negão’’ para descrevê-lo ao segurança. A enfermeira Nazilda Salviano, irmã de Ventura e membro do Movimento Negro de Londrina, afirma que os casos de discriminação racial são frequentes na cidade. ‘‘O problema é que a maioria das pessoas que são alvo do crime não têm informação suficiente para saber como agir quando são humilhados’’, diz.
Ela afirma que uma pesquisa realizada pelo movimento negro apontou que mais de 60% da população do município é negra ou descendente de negros. ‘‘A situação melhorou bastante em Londrina. Mesmo assim ainda a comunidade negra da cidade continua marginalizada, se concentrando na periferia da cidade onde mora e trabalha’’, comenta.

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