Holandesas criticam ‘‘selva de pedra’’
As jogadoras de vôlei Cintha e Erna estranham a arquitetura
de Curitiba e sentem falta de um verde mais homogêneo
Nenhum levantamento aponta
o número de 52 m2 de
verde por habitante usado
no marketing oficial
Marcos Freitas e
Miriam Karam

Albari Rosa
CinzentoCintha e Erna na sacada do apartamento em que moram: paisagem de cimento é tudo o que vêemAs holandesas Cintha Boersma e Erna Brinkman, campeãs brasileira de vôlei pelo Rexona/Paraná, sentem falta de decantado verde de Curitiba no bairro Rebouças, onde moram há oito meses, e em outros pontos da cidade. Mas o que mais chama a atenção de Cintha é que o concreto acaba sobrepujando o verde, deixando a cidade cinzenta demais. ‘‘Na Holanda os prédios são menores, geralmente de três ou quatro andares, e aqui há verdadeiros arranha-céus que dão a impressão de estarmos numa selva de pedra’’, diz.
Mas há regiões em Curitiba que compensam a falta do verde, como o Parque Barigui, que as duas costumam visitar quando estão de folga da maratona de treinos e jogos. ‘‘Ali há muita vegetação e nem parece ser a mesma cidade que vemos da nossa janela’’, diz Cintha.
Número misterioso- As holandesas provavelmente não sabem, mas Curitiba se orgulha de ostentar 52 metros quadrados de área verde por habitante. O conhecido marketing da Capital Ecológica, no entanto, é baseado na avaliação da ‘‘sombra da copa das árvores sobre a área da cidade’’, por meio de fotos aéreas. Até hoje foram feitos dois levantamentos, e o curioso é que nenhum deles chega ao número de 52. O primeiro, feito em 1987 pela Fundação de Pesquisas e Estudos Florestais da Universidade Federal (Fupefe), apontou a existência de 50,15 metros quadrados per capita.
Este Mapeamento das Áreas Verdes do Município de Curitiba, como se chamou o trabalho, foi atualizado na tese de mestrado da arquiteta Letícia Hardt, em 1994. A cobertura verde havia caído de 15,06% da área de Curitiba (quase 433 milhões de metros quadrados) para 13,07%. O que resultou em 43,04 metros quadrados por pessoa, levando-se em conta, então, dados preliminares do censo de 1991 do IBGE e fotos aéreas do IPPUC, de 1990.
A Secretaria Municipal do Meio Ambiente, que está realizando um novo levantamento, trabalha hoje com outros dados, que também não chegam ao misterioso número 52. Técnicos da secretaria sustentam que os 43,04 metros quadrados se devem apenas a áreas particulares, o que a própria autora do trabalho, Letícia Hardt, nega. Ela afirma que o número é total e, para chegar a ele, usou a mesma metodologia do trabalho da UFPR.
De acordo com a secretaria, os 21.963.914 metros quadrados de áreas verdes municipais seriam responsáveis por mais 10,23 metros quadrados per capita, e a arborização pública, por mais três metros quadrados. Somados aos 43,04 metros, chega-se a 56,27 metros quadrados para cada um dos residentes na cidade. De qualquer forma, o número 52 continua sendo um mistério.
E a conta, além disso, não é segura nem científica. O cálculo está sendo refeito com um novo levantamento, em curso na Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Com aerofotos de 1997, todas as áreas verdes de Curitiba, com mais de dois mil metros quadrados, estão sendo mapeadas. Hoje, a secretaria conta 1.111 áreas verdes cadastradas, entre públicas e particulares, mas não há informação da soma total desse verde.
Embora haja um certo verde visível em quase toda a cidade, a chamada cobertura arbórea é, de fato, concentrada em alguns pontos. Há bairros mais beneficiados que outros - Sítio Cercado, Umbará e Tatuquara, por exemplo. A maior concentração está mesmo ao longo dos rios Iguaçu e Passaúna, também na região Sul da cidade, no limite com municípios vizinhos.
O levantamento da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, no entanto, não fica pronto antes de cinco meses. Segundo o engenheiro cartográfico Luiz Miguez, chefe do Serviço de Geoprocessamento da secretaria, o processo que está sendo usado é mais sofisticado e deve revelar um bom número de bosques antes não cadastrados. O sistema usa sensoriamento remoto e, uma vez feitas as fotos, elas são digitalizadas. Depois de identificadas, é necessário ainda um trabalho de campo, para inspecionar as áreas verdes.
Todas as áreas com mais de dois mil metros quadrados serão cadastradas e passarão a ser controladas pelo município. Qualquer construção ou desmatamento precisa de autorização especial, a chamada guia amarela.

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