"Hoje as crianças entendem que ela é normal"
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quarta-feira, 16 de março de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 
A menina de 8 anos tem um problema genético que afeta a marcha e que se manifestou assim que começou a dar os primeiros passos. Mas até a pré-escola os colegas de classe não percebiam a dificuldade. Foi a partir dos 5 anos que o quadro se agravou e ela passou a sofrer bullying. Por não conseguir acompanhar as outras crianças nas brincadeiras no recreio, ela ficava isolada. "A escola dizia que ela se excluía. Fui bastante à escola nos horários de lanche e percebi que como ela sabia que ia ser rejeitada, nem se aproximava das outras crianças", contou a mãe.
Com o tempo, a garota não queria mais ir à escola, nem fazer provas e nem viver. Nas avaliações, quando tinha oportunidade, ela relatava o que sofria e escrevia sobre a necessidade de ter amigos. A menina iniciou um tratamento com a fonoaudióloga e psicopedagoga Pollyanna Bernardino Aranda, que detectou um quadro depressivo.
Em sua clínica em Londrina, Pollyanna atende 75 crianças e adolescentes com até 16 anos de idade. Os pacientes chegam já com o diagnóstico. São portadores de problemas na fala ou com dificuldades de comportamento, como TDAH (Transtorno de Deficit de Atenção/Hiperatividade) ou TDO (Transtorno Desafiador Opositor), e por conta desses problemas acabam sendo vítimas de bullying. "Além de lidar com suas dificuldades, elas têm de lidar com o olhar do outro e é um olhar sempre reprovador. São crianças que não são convidadas para os aniversários dos amiguinhos da escola e no recreio ficam isoladas. A escola tem de inserir essa criança, contornar o problema e promover a integração."
A menina de oito anos estuda em uma escola particular, mas Pollyanna ressalta que o bullying é praticado tanto na rede pública como na privada. "As crianças que praticam bullying são filhas de pessoas que têm preconceito. É comum elas serem incentivadas pela família. Não tem nenhuma relação com a questão social."
TRANSIÇÃO
Pedagoga da Escola Estadual Professor João Rodrigues da Silva, no Conjunto Antares (zona leste de Londrina), Rosana Paes de Lima Freitas disse que os casos de bullying são frequentes e envolvem, principalmente, adolescentes entre 12 e 16 anos. "Eles estão em fase de transição súbita, com mudanças no corpo, e isso sempre é motivo de piada. Aparece acne, a voz muda, ficam gordinhos."
Rosana diz que a escola tenta conscientizar os alunos, mas quando a prática é detectada dentro da escola, os responsáveis são chamados para conversar. Se a conversa não surtir efeito, a família é comunicada e, se não parar, a família da vítima é chamada à escola. "Às vezes, a família da vítima não sabe o que acontece porque o aluno não fala para evitar constrangimentos, mas esse intercâmbio da família é muito importante."
A mãe de um garoto de 13 anos tem recebido a ajuda de Rosana desde que transferiu seu filho para a escola no Antares. O menino tem TDAH e TOD. A mãe reconhece que o filho tem um comportamento agressivo, mas luta contra a ignorância em relação ao problema para que ele tenha uma rotina escolar mais tranquila. Na escola onde o garoto estudou da pré-escola até os 12 anos de idade, ela era constantemente chamada pela direção. "Eu ouvi muita coisa. Meu filho foi tachado de mal educado. Os professores falavam na frente dos colegas para ele tomar o remedinho porque não dava para ficar na sala de aula", relatou. "Decidi mudar meu filho de escola porque não aguentava mais ir até lá."
Na escola atual, onde ele está desde o ano passado, a convivência é mais tranquila, mas o garoto já enfrentou alguns problemas. Ele também faz acompanhamento psicológico, que se estende à mãe. "A psicóloga me orienta a nunca conversar com ele aos gritos. Todas as vezes que converso calmamente, eu consigo resultados. Eu também tenho que me tratar", disse.
A história da menina de oito anos também aponta para um final feliz. Após muitas conversas com a direção da escola, foram feitas mudanças na estrutura física, com a instalação de rampas, e o lanche hoje é feito em círculo, para facilitar a interação entre as crianças. E quando ela passou a utilizar cadeira de rodas, começou a ocorrer uma disputa entre os colegas de classe. Todos queriam ajudá-la a se locomover. "Hoje é tudo em grupo e as crianças entendem que ela é normal", disse a mãe, aliviada. A irmã mais nova, que tem 5 anos e sofre do mesmo problema, deve encontrar um ambiente escolar menos hostil.


