Um policial que canta e espanta os males; um engenheiro e um publicitário que aceleram para trocar o estresse da labuta diária pela adrenalina; um administrador que esquece da vida recriando aviões e tanques militares. Os personagens do texto que você vai ler a seguir são pessoas que descobriram no hobby uma maneira de tornar a vida mais leve, transformaram as horas de puro deleite em combustível para todo o resto: responsabilidades, horários rígidos, jornada exaustiva de trabalho.
Ainda criança, o soldado Clauzídio César Cordeiro, da 2 Companhia da Polícia Militar de Loanda (102 km a Oeste de Paranavaí), descobriu o talento para a música, enquanto aprendia, sozinho, a tocar viola. Ele tinha apenas seis anos, e daí em diante nunca mais viveu longe dos acordes. Nem quando resolveu que o seu ganha-pão seria a rotina de um quartel militar.
''Eu amo a minha profissão, mas a música é a pilha que alimenta meu organismo, serve para contrabalancear e espantar os maus fluídos. Melhora até o convívio com as outras pessoas'', diz o PM, que afirma nunca ter enfrentado problemas na corporação por causa de sua veia artística. ''Muito pelo contrário, sempre recebi apoio.'' Cordeiro se diz bem recompensado. Ele lançou recentemente o seu segundo CD e venceu o 1º Festival de Música Sertaneja de Loanda (Femucil).
O engenheiro civil José Antonio Bahls, 39 anos, descobriu o kart há cerca de quatro meses, por influência de um amigo. A identificação foi instantânea. ''É como praticar esporte e andar de montanha russa ao mesmo tempo. É adrenalina pura'', define. Ele conta que o amigo resolveu convidá-lo para pilotar na época em que estavam trabalhando em uma obra em Maringá. ''Era muito estressante, passávamos a semana lá, trabalhando 10 horas por dia. O kart passou a funcionar como uma terapia, relaxa completamente.''
A mesma sensação tem o publicitário Edson Bento Coutinho, 38 anos, que pode ser visto todas as tardes de sábado e manhãs de domingo acelerando no aparentemente desconfortável carro. ''Tive contato com o esporte há uns três anos, em Rolândia (25 km a oeste de Londrina). Me apaixonei, e imediatamente eu e um amigo começamos a montar nossos próprios karts. É o esporte que mais me aproxima da Fórmula 1, que eu também adoro'', revela.
Coutinho acha que não saberia viver sem a rotina de passar os fins de semana ''fuçando'' no carro. ''Isso aqui é a extensão da minha casa'', define. Tanto é verdade que de uns tempos para cá ele tem aparecido no kartódromo acompanhado do filho de 7 anos, que já ensaia as primeiras aceleradas. ''Além de ficar junto dele, minha mulher não briga tanto por eu passar muito tempo aqui'', brinca.
O administrador Ely Torresin também tratou de transferir sua paixão pelo plastimodelismo para o filho Victor, de 9 anos, e explica por quê: ''Os filhos não podem se sentir trocados pelo hobby, é importante que eles também participem''. E participando, lembra Torresin, as crianças aprendem a respeitar a atividade. ''Um dia dei um kit para o Victor brincar. Ele logo percebeu a fragilidade das peças, e soube que não se tratava de um brinquedo.''
Para o administrador, pesquisar sobre os modelos antigos (sua paixão são os aviões, tanques de guerra e navios), passar horas montando peças minúsculas, recriar as cores como foram originalmente, é uma terapia. ''Eu sempre digo que de estresse eu não morro. Estou sempre inventando alguma coisa'', diz ele, referindo-se ao gosto pela jardinagem, ao costume de ir para a cozinha preparar delícias para a família e amigos e aos muitos CDs de sua coleção.

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