O relógio é mesmo um objeto desprestigiado hoje em dia. Antes imprescindível e usual, agora as pessoas até se esquecem dele. Preferem checar a hora nos celulares ou em outros aparelhos ultramodernos que a tecnologia despeja no mercado a cada segundo. Para muita gente, passou a ser mero adereço. Mal sabem que o relógio é muito mais que ponteiros indicando números, muito mais que pêndulos, mais que moda. ''Representa 5 mil anos de esforços do homem para cronometrar aquilo que chamamos de tempo'', define o museólogo Ninger Marena, um apaixonado por mobiliário e, claro, relógios.
Segundo ele, o Museu Histórico Padre Carlos Weiss, de Londrina, ''é talvez o único do Paraná a ter um acervo tão valioso no campo da relojoaria''. O mais antigo exemplar, um relógio fabricado na Inglaterra por volta de 1910, foi restaurado recentemente pelo relojoeiro Jaime França e voltou a funcionar pontualmente.
''Mesmo depois de mais de 90 anos de existência, o relógio não tinha uma peça sequer quebrada. O Jaime apenas desmontou, limpou e regulou o relógio, que voltou a funcionar normalmente'', assinala Marena, recordando que este exemplar costumava informar a hora na antiga estação de trem Frei Thimótheo, em Jataizinho (21 km a leste de Londrina).
Com a decisão da antiga Rede Ferroviária Federal de desativar todas as estações de trem do Norte paranaense, os relógios que funcionavam nesses locais foram doados ao Museu Histórico de Londrina. Marena ainda não terminou de catalogar todos os exemplares, mas imagina que existam pelo menos 50 no acervo londrinense.
Na entrada do museu há uma parede com 21 relógios olho-de-boi (usados nas estações de trem), de parede e de uso doméstico, além de um termômetro de uma antiga locomotiva a vapor perdido em meio a tantos relógios.
Ainda numa volta rápida pelo Museu Histórico, é possível encontrar relógios mais antigos ainda, inclusive despertadores das décadas de 1930 e 1940. Tem também um modelo conhecido como oito, do início do século passado, inspirado no design francês da época. ''Além do famoso bimbam, um relógio de mesa, sem pêndulo. Ele tem um martelinho que quando bate nas varetas faz um barulhinho parecido com o som bimbam'', descreve Marena.
Nostálgico, até pela característica da profissão, o museólogo rememora os primórdios dos marcadores de tempo, nascidos na era dos egípcios, com os relógios de sol. ''Depois veio a clepsidra, uma espécie de ampulheta ou relógio de areia, criada pelos gregos'', recorda.
Marena conta que, para os gregos, ''o tempo já nasceu velho, por isso o deus do tempo, Cronos, é representado por um velhinho com um barba comprida, branca, segurando uma foice'', diz o museólogo, ressaltando que foram tantas as modificações até Santos Dumont inventar, por acaso, o relógio de pulso, em meados do século passado.
De todos os relógios expostos no Museu Histórico, no entanto, apenas sete funcionam perfeitamente. Sem tempo, nem dinheiro para investir na restauração dos exemplares, Marena escolheu repetir a história destes objetos aos visitantes para, quem sabe, sensibilizar o público e obter doações.
''Muitos doam objetos antigos de família como se o museu fosse um mero depósito, quando na verdade é o local escolhido para contar a história da cidade'', explica. Para o museólogo, o homem é o único ser vivo capaz de contar histórias ao longo do tempo.
''Um cachorro é sempre um cachorro, um gato é sempre um gato, mas um homem carrega emoções e percepções psicológicas ao longo dos anos, histórias que passam de geração em geração. Por isso digo sempre: preserve a sua história, dê importância ao seu passado'', ensina. ''Ah, e não se esqueça de admirar a beleza dos relógios!'', brinca.

mockup