Histórias de terra, água e asfalto
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sexta-feira, 30 de setembro de 2005
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Adauto Gomes Patriota nasceu com a vocação para 'correr o mundo' e com o talento de vendedor. Ele uniu as duas coisas para ser um profissional bem sucedido: durante 43 anos Patriota viajou pelas estradas do Brasil, vendendo um pouco de tudo e de tudo um pouco. Remédios, máquinas de escrever, calculadoras, roupas e até ações. Hoje, aos 69 anos, aposentado e morando em Londrina, ele comemora uma data que passa despercebida para muita gente no calendário: o Dia do Viajante Comercial.
Espírito aventureiro é inato mas treinamento é outra coisa; o de Patriota começou bem cedo. Aos 6 anos ele já 'trabalhava' no comércio do pai, uma mercearia em Maceió (Al), onde funcionavam também uma barbearia e uma sapataria. ''Ali eu comecei a aprender a psicologia do comércio, que é conhecer as pessoas pelas expressões do rosto e até por um aperto de mão'', recorda.
Logo a cidade ficou pequena e Patriota arranjou um jeito de conhecer novos horizontes. O primeiro trabalho como viajante foi para uma multinacional que vendia remédios. Ganhou um jipe, uma pasta e um curso rápido: ''Me ensinaram a nunca carregar a pasta na mão direita, que precisava ficar livre para cumprimentar os clientes; a olhar sempre nos olhos e nunca dar as costas''.
Vendedor, naquela época, também era propagandista e cobrador. Tinha que entender de mecânica - ''era comum o carro quebrar ou atolar na estrada. Perdi a conta das vezes que tive que acorrentar os pneus do jipe. Você sabia que se o limpador de pára-brisa quebrar é só passar fumo umedecido no vidro que ele não embaça?'', ensina.
O contato pessoal e as visitas constantes aos clientes também faziam do viajante um pouco psicólogo: ''A gente ouvia muitas histórias, algumas que não podia nem repetir. Confidências, pedidos de conselhos. E era preciso também ter muito tato. Por exemplo, remédios para doenças psíquicas eram um tabu. Naquela época a gente nem podia falar em calmante, as pessoas tinham o maior preconceito'', conta.
Observar, aprender rápido e ter boa memória também ajudavam muito. ''Uma vez estava em Castro Alves, na Bahia, onde se planta muito fumo e eu observei para um cliente que a economia da região girava em torno do tabaco. Prá quê! Tabaco, por lá, era um palavrão daqueles'', lembra Patriota, rindo. ''Em Guarapuava, no Paraná, me pediam camisa da Broadway. Eles chamam assim o tecido maquinetado. Em Porto Alegre, certa vez, saímos para almoçar na Avenida Farrapos. Ouvi um pessoal comentando que por ali tinha uma peixada. Pensa que era comida? Negativo, era uma trombada de carros'', recorda.
As últimas viagens de Patriota foram com a esposa Doralice, com quem está casado há 40 anos. ''Os filhos cresceram e ela resolveu me acompanhar. Viajamos juntos o Brasil inteiro, de Goiania a Carajás, Serra Pelada e até Amazônia. Ela vendia roupas femininas e infantis e eu, masculinas''. As distâncias eram enormes, às vezes mais de três mil quilômetros. O transporte, um Corcel 2, de 5 marchas. ''Era gostoso demais'', suspira Doralice.
Até os apuros, hoje lembraças, são motivos de saudade. ''Quando fui a Marabá ainda não tinha ponte. Ao descer do barco, com a rede enrolada no corpo, a mala, pasta e o mostruário nas mãos, caí no rio. Fiz a viagem de volta a Belém pelado, dentro do ônibus, com as roupas estendidas na janela prá secar. Ainda bem que todos os passageiros eram homens'', lembra Patriota. As risadas reaparecem em outro fato, acontecido no Tocantins. ''Eu e a Doralice frequentávamos um dos melhores restaurantes da cidade, que só tinha dois estabelecimentos. A comida era excelente, serviam 3 ou 4 qualidades de peixes. Tinha um que a gente adorava, com uma gordurinha amarela que era uma delícia. Um dia, estávamos comendo e dois viajantes chegaram atrasados e perguntaram se ainda tinha carne de jacaré. A dona do restaurante respondeu que tinha nos servido o último prato. A Doralice ficou indignada, nunca mais quis comer lá e tivemos que trocar de restaurante. Passamos a ser fregueses do segundo melhor'', brinca.
Companheiros sempre, Doralice e Patriota continuam trabalhando juntos. Longe das estradas, na escola particular de um dos filhos. Serviço tranquilo, seguro, mais adequado para a idade dos dois. ''A gente não têm mais a mesma visão, os mesmos reflexos, a mesma resistência física'', ressalta ela. O viajante discorda na hora: ''Que nada. Sinto saudades da estrada. É a universidade da vida'', filosofa. E aproveita para fazer uma última propaganda: ''Se tiver aí algum empresário interessado em me contratar, estou pronto para voltar ao trabalho''.


