Elas chegaram ao bairro quando o local era uma "invasão" urbana, nas décadas de 1970 e 1980
Elas chegaram ao bairro quando o local era uma "invasão" urbana, nas décadas de 1970 e 1980 | Foto: Fotos: Gina Mardones



Muitas histórias de luta de mulheres batalhadoras formam a trajetória do conjunto Novo Amparo, na zona norte de Londrina. Da zona rural e da periferia da cidade, elas chegaram ao bairro quando o local era uma "invasão" urbana, nas décadas de 1970 e 1980. Formaram famílias, criaram filhos, se engajaram na briga por melhorias e, hoje, se orgulham do que ajudaram a construir. A história dessas mulheres é relembrada em uma exposição fotográfica organizada pela escola municipal Elias Kauan. Até 31 de março, as fotos ficam expostas no pátio do colégio para visitação da comunidade.

A iniciativa, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, teve o objetivo de resgatar histórias e reforçar o engajamento da população local com a escola. "Quisemos despertar a sensação de pertencimento", afirmou a diretora Márcia Cristina Paglia Sampaio. Segundo ela, essas mulheres são parte da comunidade escolar desde os tempos em que levavam os filhos para a instituição. Hoje, acompanham netos e bisnetos e muitas delas também frequentam a EJA (Educação de Jovens e Adultos).

"Tenho muito orgulho da minha história no Novo Amparo", afirma Joana Rodrigues dos Santos, 72
"Tenho muito orgulho da minha história no Novo Amparo", afirma Joana Rodrigues dos Santos, 72



A mais antiga personagem dessa história é Joana Rodrigues dos Santos, 72, que foi despejada de uma casa onde pagava aluguel por não ter como honrar a dívida e comprou um barraco por "duzentos mil réis" na chamada "favelinha do Amparo". Graças a um projeto habitacional, conseguiu a casa onde mora até hoje. Os cinco filhos foram criados no bairro, mas ela nunca deixou de olhar pelas outras crianças.

Santos trabalhou por quatro anos como zeladora em uma escola de educação infantil e, por achar lindas as festas do Dia da Criança, decidiu ela mesma fazer uma festa para as crianças do Novo Amparo. "Pedi doações para a minha patroa e ela ajudou. Depois, quando já trabalhava como doméstica, as patroas continuaram ajudando. Hoje faço a festa com doações da comunidade e também compro algumas coisas com meu próprio dinheiro", conta.

Animada, ela também organizou a primeira festa junina do bairro, que hoje é responsabilidade da associação de moradores. A população local faz os produtos, vende em barraquinhas e assim consegue renda extra no mês de junho. Música e diversão são elementos importantes e a pioneira garante que a comunidade é muito festeira. "Tenho muito orgulho da minha história no Novo Amparo", garante.

Maria Laura de Oliveira, 69, deixou a Bahia rumo a Londrina na década de 1970 em cima de um caminhão pau de arara. "Vim para Londrina porque meus irmãos já estavam aqui. Eles tinham um sítio, mas a terra era pouca para todo mundo e não tinha o que comer", recorda.

Como muitos trabalhadores rurais, ela veio para a cidade depois da crise da cafeicultura, em busca de oportunidades. Com uma trajetória recorrente entre as vítimas do êxodo rural, acabou na "favelinha" por falta de recursos para pagar aluguel. Mudou-se para o Novo Amparo quando conseguiu uma casa popular e neste local criou oito filhos que lhe deram 16 netos e dois bisnetos. Conhecida como "Maria da Horta" e "Maria do Pão", ela trabalhou como "boia fria", integrou frentes de trabalho e atuou até no abate de frangos em uma indústria, mas não conseguiu se aposentar.

Para complementar a renda, desenvolveu os dotes de comerciante e ficou famosa por vender pão, produtos de crochê e verduras da horta comunitária pelo bairro. "Não gosto de ficar parada", conta ela, que agora passou o "negócio" para os filhos, mas continua frequentando a horta. "É o meu exercício", avisa.

A grande família da pioneira se reúne todos os domingos para o tradicional frango assado e o encontro é sempre uma festa. Orgulhosa do próprio legado, ela conta com alegria que todos os filhos "trabalham em firmas" e três netos já cursam faculdade. "Sou muito orgulhosa da minha família", diz.

Histórias de luta das mulheres do Novo Amparo
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'Conheço todo mundo e me sinto acolhida'

A história da inspetora de alunos Benedita Aparecida Silva, 61, se confunde com a história da Escola Municipal Elias Kauan, onde ela trabalha há 31 anos. Com a mesma trajetória de uma vida adulta que começou na favela, ela encontrou um propósito ao conseguir uma oportunidade na escola, onde sente-se alegre todos os dias. "Amo meu trabalho, fico feliz quando posso ajudar", diz ela, que admira o desenvolvimento do Novo Amparo ao longo dos anos.

"Antigamente tinha tanto buraco na rua que a gente plantava bananeiras para sinalizar. Hoje temos de tudo, não tenho do que reclamar. Criei meus filhos e ajudo a criar meus netos aqui, para mim é um ótimo lugar."

Um dos momentos mais especiais da rotina de Maria Laura dos Santos, 61, é a hora de ir para a escola. Essa moradora do Novo Amparo desde 1977 sempre gostou de estudar, mas nunca teve oportunidade porque o pai precisava que ela ajudasse na roça. Aluna do EJA, está contente por aprender a ligar as letras e garante que não há idade para aprender. "Eu amo ir à escola", avisa. Antes de estudar no Elias Kauan, ela frequentou a EJA de um acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-terra), onde viveu alguns anos em busca da oportunidade de ser dona da própria terra. "Ainda tenho vontade de viver no campo, mas aqui no Novo Amparo também é muito bom."

Minas Gerais e Mato Grosso foram os lugares por onde Maria de Lourdes de Oliveira, 64, passou antes de chegar no Novo Amparo. Ela conta que veio a Londrina porque tinha familiares na cidade e chegou ao bairro onde vive até hoje porque não tinha outra opção, mas não se arrepende da escolha. "Aqui me sinto segura, posso deixar roupa no varal que ninguém mexe", conta ela, que também é a cozinheira da escola municipal e gosta quando as crianças elogiam a comida. "Já fui empregada doméstica, auxiliar de cozinha, mas aqui na escola estou feliz. Minha vida é no bairro, estou satisfeita por morar aqui", comemora.

A caçula da turma de homenageadas é a zeladora Viviane Pereira Costa, 40, que nasceu no Novo Amparo, estudou no Elias Kauan e hoje trabalha na escola. Da infância, ela lembra das ruas de terra e da falta de saneamento básico. "Melhorou muito", considera a pioneira, que criou seis filhos no local e hoje vê os netos crescerem. "Já estamos na terceira geração", avisa ela, que não tem motivos para querer outro lugar. "Aqui tenho amigos e uma vida com harmonia e alegria."

A educadora Lucimar Pauleti Fernandes não mora no Novo Amparo, mas foi homenageada na exposição pelos 27 anos dedicados à escola Elias Kauan, onde foi diretora. "Escolhi a escola porque era fácil de vir de Ibiporã (onde ela mora) e nunca quis sair. Conheço todo mundo e me sinto acolhida", afirma. A família, no início, insistiu para ela mudar de instituição por temerem violência, mas ela garante que os temores eram infundados. "Gosto do meu trabalho, da comunidade e da escola. Quero me aposentar aqui", sentencia.

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