Histórias de difíceis recomeços
A casa abrigo mantida pela prefeitura de Londrina é o destino das mulheres vítimas de violência que precisam se afastar de casa para fugir das agressões. Segundo a psicóloga Cleusa Casarin Andrello, gerente do Centro de Atendimento à Mulher (CAM), as mulheres podem permanecer no local por quatro meses, até encontrarem um lugar para morar.
A dona de casa Luciana (nome fictício), 24, conhece bem a rotina de estar abrigada. Separada do companheiro após enfrentar sete anos de violência, ela ficou na casa por duas temporadas de quatro meses. Mãe de duas crianças - uma de sete anos e outra de um ano e meio -, ela voltou ao abrigo na semana passada após nova tentativa de reconciliação. ''Não tem jeito, ele não vai mudar'', lamentou Luciana, que saiu de casa escondida e deixou o filho mais velho com o pai. ''Estou preocupada. Meu filho deve estar jogado na casa de parentes'', disse.
A moça foi morar com o companheiro agressor há mais de dez anos, quando tinha apenas 13 anos de idade. ''Ele tinha 19 anos, na época'', contou. O primeiro filho veio aos 16 anos. O nascimento da criança, segundo ela, intensificou as agressões físicas e a violência emocional. ''Ele ameaçava toda a minha família de morte.'' Luciana - que é quase analfabeta -sonha com o dia em que conseguirá se sustentar sem depender de ninguém. ''Quero arrumar um emprego e uma casa só para mim. Já consegui uma creche para os meus filhos.''
A recicladora de lixo Maria (nome fictício), 34, carrega em sua história a dor de ter sido quase morta pelo marido. Na trajetória de nove anos de surras e ameaças, ela foi vítima de uma facada no abdômen desferida pelo companheiro. A agressão aconteceu na frente do filho pequeno, que foi o responsável por chamar a polícia. ''Ele chegou a ser preso, mas, quando saí do hospital, já tinham tirado o homem da cadeia'', afirmou.
Ela fugiu com o filho para uma barraco no Jardim São Jorge (Zona Norte), onde começou a reconstruir a vida. ''Deixei tudo o que tinha, inclusive minha casa'', contou. Separada há seis anos, ela tem novo companheiro, uma casa financiada e uma nova vida. Apesar da reviravolta, continua sofrendo com o assédio do ex-marido, que a agrediu no final do ano passado por causa de um desentendimento sobre horários de visita do filho. ''Ele pensa que é meu dono, que ainda manda em mim.''
Segundo a psicóloga Cleusa, o padrão de comportamento do ex-marido de Maria é recorrente: ''A causa da violência é a sociedade machista que encara a mulher como propriedade do homem'', sentenciou. A gerente do CAM acrescentou que, normalmente, os agressores são filhos de homens violentos. ''Eles repetem parâmetros familiares''. (C.A.)





