Histórias da terra e do ar
Quando o assunto são histórias ocorridas no Aeroporto de Londrina, Dikran Balikian, 66 anos, é uma fonte inesgotável. Lá, ele já viu de tudo. Até homem correndo na pista, querendo levantar vôo. Isso, na época em que avião era o principal meio para se chegar ou sair da cidade. Não dava para contar com as estradas da região, que ficavam intransitáveis quando chovia. E com tanto dinheiro que tinha na cidade, ninguém queria perder tempo em estrada empoeirada.
Descendente de armênios, seo Dikran nasceu em São José do Rio Preto (SP), mas como chegou por aqui em 1935, com apenas dois anos, tem Londrina como sua cidade natal. Meus pais foram verdadeiros pioneiros. Mas aqui, tem gente que chegou na década de 60 e que se diz pioneira, comenta com certa dose de ironia.
Álbum particularÀ frente do avião FAB tipo B-25, em 1958Seo Dikran acompanhou todo o desenvolvimento da cidade e se lembra, com saudades, das histórias que viveu. Quando a gente viajava para São Paulo, de trem, virávamos a capa branca da poltrona quando estávamos chegando lá, para esconder a cor. Ficava tudo vermelho, de tanto pó. Mas não adiantava muito fazer isso. As cores das botas e do dinheiro que a gente carregava denunciavam nossa procedência.
Embora tenha ajudado o pai na loja de armarinhos, seo Dikran sempre teve fascínio pela aviação e nunca pensou em trabalhar por muito tempo no ramo do comércio. Quando era criança, a diversão era pegar a bicicleta, junto com os irmãos e amigos, e ir até a Aviação Velha, ver o movimento do sobe e desce de avião. Com 19 anos, ele começou a trabalhar na Aerovias Brasil, vendendo e reservando passagens. A empresa foi absorvida pela Real Transportes Aéreos e depois pela Varig, mas seu posto foi garantido.
Dikran BalikianInterior do terminal de passageiros de 1954Seo Dikran só deixou a companhia para entrar no Departamento de Aviação Civil (DAC), por volta de 1956, onde está até hoje. Como fiscal do departamento, ele foi e é um dos responsáveis pela averiguação das documentações de aeronaves e tripulação. Pilotar um avião já fez parte dos planos de seo Dikran. Tanto que guarda até hoje prospectos de cursos de aviação que eram realizados nos Estados Unidos. Eu pedia, recebia, mas nunca tinha dinheiro pra ir fazer.
Ele chegou a frequentar aulas no Aeroclube de Londrina, mas logo percebeu que, embora gostasse de aviação, seu negócio era ficar na terra. Na época a mãe da gente ficava preocupada por causa da guerra. Quando seo Dikran entrou para o DAC, o aeroporto já funcionava na Avenida Santos Dumond. O movimento era intenso - era o terceiro aeroporto do País em movimento de aeronaves - e as brigas que ocorriam no saguão, então, nem se fala.
Dikran BalikianMarechal Teixeira Lott, em Londrina (1957)Nas sextas-feiras, isso aqui enchia de fazendeiros para esperar o balaio das putas, o avião que trazia prostitutas de São Paulo, conta. O movimento de aeronaves refletia a realidade econômica da cidade e região. Antes, se tinha prostituta e malandro na cidade, era porque o dinheiro corria fácil. Hoje, se sabe da situação econômica pelas bolsas de valores, brinca seo Dikran.
Na época, o aeroporto era muito diferente do que é hoje. O terminal de passageiros era de madeira e ficava onde hoje é o estacionamento de carros. A pista, de chão batido, era onde fica o atual terminal de passageiros. Era tanta poeira que a hora que o avião ia subir a gente tinha que correr para fechar a porta para não encher de pó o terminal. De longe dava pra saber onde era o aeroporto. Era só ver a nuvem vermelha.
Dikran BalikianEstação de passageiros e, ao fundo, torre de controleMesmo com tanto movimento, cada turno contava apenas com uma pessoa no controle de vôo. Era tanto trabalho que um deles enlouqueceu. Um dia ele arrancou a cinta e começou a girá-la sobre a cabeça, correndo pela pista do aeroporto e dizendo que ia levantar vôo. Outra história que seo Dikran não esquece é quando o proprietário de uma empresa de táxi-aéreo, o Zieminski, resolveu pulverizar a zona de meretrício da cidade.
Ele pegou uma carga de chato e ficou tão bravo que decolou com um avião agrícola cheio de BHC e soltou em cima da zona. O aeroporto, que era retirado e aberto, também servia como local de fim de festa. Depois das 2 horas da manhã, quando fechavam as casas da zona do meretrício, Dikran conta que era comum os casais irem pra lá. No dia seguinte isso aqui estava uma nojeira.
As brigas se constituem num capítulo à parte. Todo sábado o barraco armava no saguão. Era o dia que tinham uns cinco ou seis casamentos, todo final de semana, e todos os casais vinham pegar avião para viajar em lua-de-mel. Os convidados vinham juntos pra se despedir, mas já vinham todos embriagados. Quando se encontravam, não dava outra.
Álbum particularDikran na pista: aeroporto movimentadoAs dificuldades técnicas não ficavam atrás das dificuldades para manter a ordem na casa. Só para se ter uma idéia, o balizamento das pistas, que hoje é automático, antes era feito com lampião. Na teoria não havia vôo noturno, mas na prática, não era raro um avião se atrasar. Quando isso acontecia, a gente tinha que ir colocando lampião ao longo da pista para que o piloto pudesse pousar. Ás vezes, a gente trazia os táxis e carros dos funcionários com os faróis acesos para a cabeceira e laterais da pista.
Também não era raro os aviões terem que arremeter repentinamente para não baterem em carroças. A pista era aberta e bem ao lado passava a estrada do Limoeira, com trânsito intenso deste tipo de veículo, de bicicleta e cavalos. Seo Dikran também foi diretor do aeroporto por 19 anos, período que teve de chorar muito na porta dos prefeitos - Hosken de Novaes, Dalton Paranaguá - para conseguir alguma melhoria para o aeroporto. Eles sempre me mandavam pedir as coisas para a Aeronáutica, mas acabavam ficando com dó e davam o que a gente precisava, desde lâmpada até água.
Além de muitas recordações, seo Dikran também guarda objetos que contam um pouco da evolução da aviação. Um deles, é uma capinha de papel que era distribuída nos vôos para guardar canetas tinteiros. Como as cabines não eram pressurizadas, era comum vazar tinta das canetas e manchar as roupas dos passageiros.
Ele lembra ainda que todo vôo tinha que ter a bordo um telegrafista. A missão dele era mandar mensagens ao pessoal em terra sobre a posição da aeronave, número de passageiros, previsão de chegada. Tudo que hoje é feito via rádio. Quando começavam a sobrevoar as cidades, os pilotos procuravam a estação ferroviária, em vez da pista do aeroporto. Todas as estações tinham, no telhado, uma seta enorme indicando a localização e a distância da pista. Hoje, temos o farol, conta.
Dikran Balikian espera ver ainda muitas transformações no Aeroporto de Londrina. Por enquanto, ele não pensa em se aposentar e justifica: A maioria dos colegas que se aposentaram está gagá ou já morreu do coração.Paulo WolfgangMemóriaDikran Balikian acompanhou todo o desenvolvimento de Londrina, ajudando a manter em funcionamento o aeroportoBenê Bianchi





