Histórias da Folha
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de agosto de 1998
Estelio Feldman 
A cidade era pequena e a gente andava a pé. Como se andava a pé, naqueles anos 50 e mesmo nos anos 60. Havia transporte coletivo, sim, entre outros uma companhia chamada Fatore, Simone & Lira, com uns ônibus pequenos, que alguns chamavam lotação. Mas a maioria ia a pé. Ou de táxi, nos também famosos biribas. Charrete existia, sim, mas não era muito usada, nos últimos anos de existência ficaram um pouco mal-afamadas, eram consideradas transporte das moças de vida airada. Não que Londrina fosse uma cidade puritana em demasia. Ademais, como sabemos todos nós, algumas casas aqui em Londrina, daquelas que os mineiros chamavam zona boêmia, que fizeram a fama de Hilda Furacão, eram nacionalmente famosas.
Claro que também havia a condução própria. Londrina, uma cidade que, como diziam os cronistas de fora, tinha um milionário em cada esquina, possuía também carros particulares. Naturalmente, porém, os órgãos de comunicação - na época havia emissoras de rádio e muitos jornais - não tinham frotas numerosas como acontece hoje com grandes redes.
A Folha, naqueles tempos, tinha um jipe. Como sempre faz questão de repetir o sr. João Milanez, sem jipes, não se escreveria a história do Norte do Paraná. Verdadeiros heróis na guerra encerrada em 45, os jipes foram trazidos para cá para fazer outra guerra, enfrentando o barro de estradas em precárias condições.
O problema, porém, é que havia um jipe para todo o serviço e para toda gente. Era comum ouvir Nilson Rímoli, diretor de redação, dizer: Manda o Nando levar isto, trazer aquilo, ou determinar a um redator: Vai com o Nando para fazer tal ou qual cobertura. E, claro, havia as brigas. Porque todos queriam a condução e havia uma só. Quem sofria era o Nando.
O Nando chegou a Londrina em 59, para trabalhar na Folha. Quando o conheci, em 60, pensava que era, apenas, o motorista do jipe. Demorou muito para descobrir que ele era o irmão do patrão, o Ferdinando Milanez. E penso que isto define bem uma pessoa fantástica, o Nando simples e amável, dividindo-se em mil para que o jipe pudesse atender a todos, trabalhando com dedicação pelas horas malucas que se exigia naquele tempo. O jipe e o Nando formaram, por muito tempo, uma simbiose. E por longo tempo, ambos ajudaram a forjar o caminho de um jornal que ia crescendo, conquistando espaço. O jipe deu lugar aos fuscas, mas não pode ser esquecido na história do jornal que ajudou a crescer.


