Histórias da Folha
A solução era improvisar, criar seus próprios meios. Quando a Folha já tinha sua pequena oficina própria, em 1950, de vez em quando faltava energia, que era gerada pela Empresa Elétrica de Londrina, na hidrelétrica do Salto Apucaraninha, em Tamarana, que naquele tempo ainda não era município. Quando o problema era na linha de transmissão, muitas vezes o jornal enviava sua única condução (um jipe como aqueles usados na Guerra), levando equipamentos e homens para ajudar no conserto da linha.
Logo o fundador do jornal, João Milanez, decidiu produzir sua própria energia. No jipe havia uma polia, que na Guerra e lugares inóspitos era usada para desencalhar veículos, arrastar obstáculos na estrada. A polia poderia também ser usada para gerar energia. Na porta da oficina, na Rua Duque de Caxias com Rua Pará, o jipe era estacionado no passeio, colocado em ponto morto, as rodas bem calçadas. O afogador era puxado conforme a necessidade de gerar mais ou menos energia. Uma correia ligava a polia à impressora rotoplana - já um avanço no jornal, que graças a ela tinha se tornado diário. A máquina imprimia quatro páginas por vez. As páginas eram montadas letra por letra, à mão, graças a caixas de tipos que Milanez comprara em São Paulo.
Depois de montadas, com letras e clichês (estes eram os moldes das fotografias e das principais propagandas), as páginas eram colocadas na impressora. Eram o molde de impressão do próximo jornal. Como todo trabalho manual, era demorado. Naquele tempo o pessoal da Oficina trabalhava a noite toda.
Faltou papel? Vem de aviãoNa época, o papel de impressão vinha em resmas, as folhas já cortadas do tamanho do jornal. Era só botar na impressora as caixas tipográficas, com as páginas montadas, e se imprimia folha por folha, ou melhor, quatro páginas por vez.
Embora viessem a existir, muito depois, alguns jornais impressos em plástico, o normal é o papel. Para rodar papel em grande quantidade, é indispensável a rotativa, uma devoradora de bobinas. Ao mesmo tempo que deu uma alegria, a primeira rotativa comprada por João Milanez, para a Folha, trouxe junto uma dor de cabeça: de vez em quando o estoque de papel estava no fim; Milanez precisava correr atrás. Foi assim que trouxe duas bobinas, de São Paulo, em avião de carreira, da Real - Aerovias Brasil.
Após ter comprado a rotativa, Milanez vivia às voltas com a permanente ameaça de faltar papel. O papel-jornal era comprado da T. Janer, que vendia material para jornais e revistas. A Folha usava uma parte, importada, vinda de São Paulo; outra parte era fabricada pela Klabin, em Harmonia (município de Telêmaco Borba), enviada para a filial da T. Janer em Curitiba e da Capital as bobinas eram despachadas, em caminhão, para o jornal, em Londrina. A Folha consumia, então, quatro bobinas por dia. Cada bobina pesava 350 quilos. De vez em quando o susto: o caminhão que vinha de São Paulo atolava no Barro Preto, lugar na BR-369, entre Jataizinho e Cornélio Procópio. Ou ocorria algum problema no recebimento do papel nacional.
Numa ocasião destas, Aristides de Morais, enviado por Milanez a Curitiba, volta numa sexta-feira com a má notícia - o papel não fora entregue pela indústria à distribuidora. Correria. Milanez apela para a T. Janer em São Paulo, tem que comprar do importado apenas. Foi atrás, convenceu a fornecedora a abrir seu depósito e retirar duas bobinas. A própria distribuidora mandou as bobinas para o Aeroporto de Congonhas, de onde seriam enviadas de avião para Londrina.
Amigo do Patrão, o gerente da Real em Congonhas tranquilizou-o que fosse almoçar sossegado, a encomenda seria embarcada. Prevendo que alguma coisa poderia sair errado, Milanez preferiu ficar por ali, de olho. Viu embarcarem uma bobina, mas também viu a outra ser retirada do local do embarque. Foi saber o que aconteceu. Informaram: Esta não cabe na porta do avião.
Com um alicate, Milanez retirou a cinta de aço da bobina, retirou a proteção de papelão, e o rolo de papel coube certinho. Se eu tivesse ido almoçar, quando chegasse em Londrina veria descarregarem uma bobina só. E com uma bobina não daria para rodar a máquina, recorda o fundador da Folha. Assim mesmo só foi possível fazer uma edição reduzida, de sete mil exemplares. Na segunda-feira chegou, também de São Paulo, um caminhão com carregamento completo de bobinas importadas.
Semana do caféChove muito em 1954. A chuvarada, de abril ao final de maio, prejudica (menos que uma geada forte prejudicaria) a produção de café e cereais. Porém, em 1º de junho a Associação Rural de Londrina começa a distribuição, aos seus associados, de mudas de café e de cereais. Ao mesmo tempo o então presidente da Associação, Antônio Fernandes Sobrinho, que mais tarde será prefeito do município, organiza a Semana do Café, programada para setembro de 54.Fotos Arquivo FolhaAvançoO início da era da rotativa na Folha no final dos anos 60Jota Oliveira





